
“A vingança está na moda” ou pelo menos é isso que expressa a premissa deste filme em que somos conduzidos de volta aos anos 50, com Kate Winslet a preencher o vazio deixado pela mítica femme-fatale no cinema.
Quando Myrtle ‘Tilly’ Dunnage (Kate Winslet), a filha pródiga de Molly Dunnage (Judy Davis), fugiu de Dungatar nunca pensaria regressar. A afirmação tipicamente cliché, “I’m back, you bastards”, prova que está pronta para a vingança, mesmo assim perguntamos: vingar-se de quê? Ao que parece Tilly foi expulsa da pequena cidade australiana porque supostamente assassinou alguém. Na verdade, a própria confirma como está amaldiçoada, já que perdeu um filho e tem dificuldade em se relembrar do passado.
Apesar de não esclarecer devidamente alguns pressupostos, A Modista prova como uma simples ideia pode ser relegada ao esquecimento no inconsciente humano e como os mesmos eventos traumáticos da infância, neste caso a da protagonista, podem emergir forçosamente. A Modista vale pela interpretação de Kate Winslet que encontra na possibilidade de criar tão exuberantes vestidos – muito próximos aos da marca Dior – uma forma de se vingar, ou talvez de se afeiçoar aos habitantes locais. O problema é que o trauma é levado para o ridículo quando surge o sargento Farrat (Hugo Weaving). Não é de todo uma forma de contestar o desempenho de Weaving, que sempre consegue dar outro ar à sua carreira, mas o drama que o argumento queria transpor cai porventura em piadas tipicamente mais pobres e populares.
Winslet apresenta-se neste filme como espécie de Gloria Swanson (que recebe uma homenagem já que o seu Crepúsculo dos Deuses é visto numa sala de cinema pela personagem), num misto também de Jessica Rabbit de Quem Tramou Roger Rabbit?. A forma como segura o seu cigarro garante-lhe a proximidade a um estilo mais sombrio e noir da femme-fatale, na tradução mulher-fatal, que esteve muito presente nos anos 30-50 de Hollywood. E, ironicamente é isso que se torna, uma mulher de que ninguém quererá estar perto, porque a vida pode estar por um fio.
Quando Tilly se reencontra com a mãe, não existe um abraço radiante imediato de Molly, uma mulher que no isolamento encontrou uma maneira de se refugiar das críticas dos seus vizinhos. Judy Davis é a chave deste filme que irá conduzir à sequência final, uma das mais explosivas do ano. A par da sua interpretação surge Teddy (Liam Hemsworth) que se apaixona por Tilly e apimenta em muito a história, é pena que o destino lhe pregue uma grande partida – apesar de não ter o mesmo tempo para brilhar que Winslet e Davis, Liam Hemsworth traça uma carreira longe de blockbusters, como The Hunger Games, provando que sabe encarnar mais que um simples galã.
Muito do charme de A Modista pertence ao guarda-roupa de Marion Boyce e Margot Wilson. É pena que por vezes a mecânica que muito se tem adoptado dentro do sistema de produção cinematografica seja de que alguns elementos à partida percepcionados pelo espetador – como o rigor dos figurinos – valham mais que o ego obscuro e interesseiro dos habitantes de Dungatar. Só na sequência final é que o filme sustenta essa ideia, pelas inúmeras referências e associações ao caos que a obra teatral Macbeth de William Shakespeare corrobora. Talvez a realizadora Jocelyn Moorhouse mostre excessivamente alguns pontos em vez de explorar o carácter maléfico de Evan Pettyman (Shane Bourne) e Elsbeth (Caroline Goodall), personagens secundárias com papel preponderante na narrativa.
Apesar de tudo, explora bem a relação entre pais e filhos e claro, Kate Winslet mantém o seu talento (e curvas) fazendo valer a experiência cinematográfica – maioritariamente feminina – que o filme evoca. Tudo porque é uma das poucas atrizes cujo papel anterior consegue ser sempre abafado pelo classicismo que dispõe no próximo, sensação tão invulgar hoje em dia.
O melhor – Kate Winslet e a química que cria com Judy Davis e Liam Hemsworth
O pior – Falta essência e dinâmica por parte da realizadora Jocelyn Moorhouse.

Virgílio Jesus

