«Qui Vive» por Hugo Gomes

(Fotos: Divulgação)

A insegurança é um sentimento cada vez mais experienciado na sociedade moderna, não somente anexada ao medo da saúde física como também a mental. São variadas e exaustivas as aquisições de responsabilidades com os encargos que essas comunidades contemporâneas nos tentam incutir, entre eles o trabalho como “modus” fundamental para a nossa existência, o amor como uma imperativa cumplicidade e o estatuto social, servindo como propósitos já formatados para qualquer individuo cumprir. E em caso de não cumprimento desses tais requisitos, a marginalidade social torna-se assim o seu lugar.

Porém, a personagem principal deste Qui Vive (sob o titulo internacional de Insecure), tem tanto de marginal como de bom cidadão na referida modelização social. Assim deparamos com Chérif (Reda Kateb), um ente na casa dos trinta, ainda residido na casa dos pais, que tenta consolidar os seus estudos de enfermagem com o seu trabalho como segurança. Enquanto isso, o nosso protagonista inicia uma relação com uma jovem educadora (uma desperdiçada Adèle Exarchopoulos), é constantemente seduzido a regressar ao “mundo do crime” e perturbado por um bando de jovens.

A primeira longa-metragem de Marianne Tardieu apresenta-nos o protagonista como uma figura rodeada por todo o tipo de conflitos, felizmente fugindo do habitual arquétipo de “loser“, o qual o cinema norte-americano tanto adora e cada vez requisita. Assim, Reda Kateb faz os possíveis para que o espectador consiga simpatizar com a sua personagem, chegando a consolidar com estes em derivação das situações vividas e retratadas, persistentemente invocadas de uma austeridade social bem atual. Mas apesar de soar denso, o universo de Chérif é para todos os efeitos povoado por personagens descartáveis sem qualquer tipo de espessura e a narrativa demasiado esquemática “enviusada” por um realismo formalista sem dimensão, torna este Qui Vive num retrato falhado, onde o carisma é prometido, mas não cumprido.

A ambiguidade, apesar de preservada, nunca nos leva a lugares insólitos nem emergentes, apenas para os mesmos cantos e recantos. Tudo acaba por se tornar num intenso déjà vu, ilusório e alusivo. Tal como a nossa sociedade, Qui Vive é um filme sobretudo inseguro.

O melhor – Reda Kateb
O pior – a anorexia do seu universo


Hugo Gomes

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