
Se No Tears for the Dead fosse uma partitura musical, ela encaixaria tão bem na pauta da 9ª Sinfonia de Beethoven. Um sinfonia que se inicia sob um alvoroço emocional para de seguida ceder a um longo percurso melancólico, quase intimista e gradualmente detalhado, rico, até por fim, culminar tudo em tons graves em concordância com uma pomposa e arrebatadora sonoridade.
É outro exemplo especifico de como o cinema de acção asiático está a bater aos pontos a indústria hollywoodesca, e jogando o mesmo jogo que estes – assassinos com consciência não é “coisa” que falte no género -, mas Jeong-Beom Lee (realizador do muito elogiado The Man from Nowhere) consegue tecer aqui algo de verdadeiramente envolvente e libertador.
Aliás, é na redenção que encaramos o combustível que parece movimentar estas personagens consistentes, contornando o efeito déjà vu da previsibilidade do seu enredo, e apostar nos contornos fabulistas que chegam acompanhar até mesmo a acão. Ação essa dotada de uma agressividade que parece intimar 90% dos policiais norte-americanos, mas de forma sóbria e constantemente fincadas no realismo e na verosimilhança (existem aqui pormenores interessantes e deveras específicos nas frenéticas sequências).
Por sua vez, os desempenhos do elenco cumprem a sua fatia neste quadro explosivo e dramáticamente rico: se Dong-Gun Jang (visto no portento bélico Taek Guk Gi é credível como Gon, o assassino contratado pelas Tríades que se insurge contra a sua própria instituição quando neste é despertado sentimentos profundos de compaixão, é em Min-hee Kim, a bela atriz no galardoado Right Now, Wrong Then, de Hong Sang Soo, que as atenções se direcionam. Uma personagem frágil, cedida à tragédia – a perda de entes queridos – que a realça em algo mais que somente uma “dama em apuros”, embora Jeong-Beom Lee constantemente ilude essa força inerente.
Eis um dos mais ricos filmes de ação do ano. No Tears for the Dead (tradução literal de Não há Lágrimas para os Mortos), ao contrário do que o titulo parece indicar, é um híbrido de intenso drama corrompido por uma frenética energia que desperta nos lugares onde menos esperamos. Pode ser previsível, mas funciona como um violento thriller de emoções. Dá para sair da sala de polegar erguido.
O melhor – um ritmo inesperado e constantemente abalado
O pior – apesar das suas boas qualidades, não existe nada de novo ou de realmente sofisticado no género.

Hugo Gomes

