
Depois da sofisticação executada na mais popular criação de Arthur Conan Doyle – Sherlock Holmes – e a sua fracassada sequela, Guy Ritchie propõe um thriller “retro-tech” com base numa celebre série televisiva intitulada de The Man From U.N.C.L.E., que foi transmitida entre 1964 e 1968. Aqui, Ritchie deserda por alguns momentos o seu inconfundível toque estético que parece ter sido abatido pela caricatura no Jogo das Sombras (a referida sequela do seu Sherlock Holmes), porém, não abandona o seu requintado gosto musical.
O Agente da U.N.C.L.E., em cumplicidade com o também recente Kingsman, aspiram a sua aparente inesgotável energia da sua colectânea musical. Colectânea essa, de uma sonoridade diversificada e sempre em sintonia com a acção envolvida. Aliás é com essa selecção que com a “camaradagem” do seu já habitual e dotado humor “british”, somos brindados com várias sequências lúdicas de comédia física, ou sugestiva. Obviamente nada de totalmente absurdo como havia sido visto no seu popular Snatch: Porcos e Diamantes (2000), até porque o jogo é outro, e Ritchie concentra em deter um requisitado filme de estúdio para as audiências estivais.
Todavia, a matéria apresentada pode estar bastante fora do paladar desse mesmo público. O Agente da U.N.C.L.E transpira a nostalgia, a um tratamento mais “retro” que o habitual, e o seu enredo remexe certas complexidades politicas e governamentais. Não é todos os dias que vemos uma colaboração entre a CIA e o KGB com direito a múltiplas sátiras em concordância com um choque cultura de época. Neste último ponto, ao contrário do que se previa em produções norte-americanas e da cada vez mais negra imagem atribuída à Rússia pelo resto do Mundo, a KGB ganha aos pontos contra a presunção da Inteligência Secreta dos EUA. Armie Hammer compõe um espião melhor que o Henry Cavill, que por sua vez tenta fazer-se ao papel de James Bond. O verdadeiro confronto de atributos e técnicas surge no entanto nos bastidores da missão, onde Cavill e Hammer demonstram os seus dotes de apreciadores de moda, ou quase!
Mas o verdadeiro vector de pujança neste modesto e colorido filme de acção está em Alice Vikander, a atriz sueca que brilhou em Um Caso Real e no recente Ex Machina, transpira a um dinamismo que parece contagiar os seus “parceiros”, revelando não só a destreza em atribuir alguma solidez nas suas personagens, mas também em mostrar a sua versatilidade como profissional. Só ela merecia um filme completo, contudo, O Agente da U.N.C.L.E não defrauda como entretenimento passageiro e de certa maneira … vintage. É o que se quer!
O melhor – o toque pessoal de Guy Ritchie, pelo menos no realçar da sua veia musical!
O pior – entretém, não maça, mas não fica na memória, e todos sabem que Ritchie já fez bem melhor.

Hugo Gomes

