«Compliance» (Obediência) por Carla Calheiros

(Fotos: Divulgação)

O realizador Craig Zobel, aqui na sua terceira longa-metragem, conta com habilidade uma história dura, que incomoda e, pior, duramente baseada em factos verídicos, demonstrando que com um orçamento risível se conseguem fazer filmes competentes e atuações meritórias. 

Zobel pega numa história real, que aconteceu em mais de 70 ocasiões durante uma década, sendo que o incidente mais grave, aqui retratado, ocorreu num restaurante daquela que é, possivelmente, a mais famosa cadeia de “fast-food” do mundo.

Aqui seguimos Sandra (Ann Dowd), afável e responsável gerente de um restaurante de “fast-food” que está a ter um dia para esquecer. Com um problema com um frigorífico, alimentos racionados, tudo parece correr mal a Sandra naquela sexta-feira, o dia mais atarefado da semana. No meio de todo aquele stress laboral, Sandra recebe um telefonema de um policia que lhe diz que uma cliente se queixa de um roubo feito por uma das caixas do restaurante dentro do estabelecimento e que convém que detenham a jovem Becky (Dreama Walker) até a policia chegar.

A partir daqui a história aparentemente simples descamba para um drama voyeurista em que o espectador assiste com repulsa a uma série de atitudes de tortura e violência psicológica perpetradas por pessoas normais mediante instruções, nunca questionadas, de uma autoridade “não visível”.

Durante o decorrer da ação, Obediência vai aumentando no espectador a sensação de constrangimento e, ao mesmo tempo, de vergonha perante a situação surreal que ali vai decorrendo, sem que nunca consigamos desviar o olhar. Durante a sua hora e meia, Zobel joga com o público, testa-lhe a paciência, bem como a capacidade de conseguir aceitar tudo o que vê com a passividade dos que passam pelo grande ecrã. E consegue.

Destaque para as interpretações das duas atrizes principais, Ann Dowd como Sandra, a boa cidadã que acaba por ser cúmplice de um crime, e Dreama Walker como Becky, a vítima do crime que nos conquista pelo seu ar perdido sem nunca cair no facilitismo da coitadinha. Por último, destaque para a banda sonora, assinada para por Heather Mcintosh, tão perturbante e hipnótica como o filme em si.

O melhor: As atrizes e a banda-sonora
O pior: Pensar que isto aconteceu realmente.


Carla Calheiros

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