«Aloft» por Fernando Vasquez

(Fotos: Divulgação)

Claudia Llosa é um dos casos de maior sucesso do cinema Latino-Americano moderno. A sua primeira longa-metragem, Meidenusa, venceu prémios em Sundance e Roterdão, mas foi em 2009 com La teta assustada, que lhe valeu o Urso de Ouro aqui em Berlim e uma nomeação para um Óscar, que o nome da realizadora Peruana passou a andar nas bocas do mundo.

Llosa regressa agora à Berlinale depois de uma serie de anos a trabalhar em televisão e curtas-metragens. Desta feita surpreende-nos com uma abordagem radicalmente diferente, mesmo que a temática não varie muito do percurso já por si explorado, insistindo em abordar a doença e o misticismo como grande foco da sua narrativa.

A realizadora reaparece agora ao leme de uma produção hispano-canadiana, repleta de estrelas internacionais e num ambiente deveras diferente do habitual, a Tundra profunda, onde o isolamento é absolutamente total e a vida é limitada pelas condições naturais do terreno.

Aloft conta-nos a história de Nana Kunning (Jennifer Connelly), uma mãe solteira permanente atormentada pela doença terminal do seu filho mais novo, Gully (Winta Mcgrath), que a impede de estabelecer uma ligação saudável e adequada com Ivan (Zen Mcgrath), o primogénito. Desesperada e encarcerada numa existência onde até o prazer carnal lhe é totalmente desprovido de cor, um dia decide procurar um curandeiro viajante, embarcando assim numa viagem onde a ciência dá lugar ao espiritualismo, desvendando no processo que ela própria tem poderes terapêuticos. A descoberta inesperada não lhe oferece o consolo desejado e após um desastre, que irá marcar a desmembrada família para sempre, acaba por se separar de vez de Ivan. Décadas depois, Ivan (agora representado por Cillian Murphy) é assediado por uma jornalista, Jannia Resmore (Mélanie Laurent), que aliciando-o com mentiras o leva de volta à sua mãe.

Ler nestas linhas os elementos fundamentais para um melodrama televisivo de serie B não será uma conclusão assim tão precipitada. Existe de facto algo muito bucólico e demasiado básico na composição narrativa de Llosa, possivelmente eco de uma tentativa falhada de chegar a uma audiência mais abrangente e universal. Mas desenganem-se aqueles que pensam que a cineasta Peruana entrou por caminhos sinuosos levianamente, já que o êxito de Aloft está, tal como nos seus galardoados trabalhos anteriores, nos detalhes.

A novela tresloucada e quase fantasiosa, quando resumida à sua base essencial, a de um drama familiar desenhado num traço místico e sonhador, é suficientemente eficiente, atingindo um clímax de arregalar os olhos, principalmente quando mãe e filho se reúnem, soltando a frustração acumulada após décadas de separação prematura. Para isso muito contribuiu a performance de Cillian Murphy, que depois de uns desaires recentes volta a apresentar-se numa surpreendente grande forma, perspicácia e prudente quanto baste, como, aliás, nunca antes visto. Igualmente importante salientar é a presença sedutora e cativante de Mélanie Laurent, cuja personagem adiciona um charme invulgar e sem paralelo no resto do filme.

A nível visual e apesar de um excelente e ambicioso design de produção do artista mexicano Eugenio Caballero, mais conhecido pelo seu trabalho em Labirinto do Fauno, são os ambientes exteriores e naturais que oferecem a rudeza necessária para manter está história pouco sóbria com os pés assentes na terra. A câmara de Nicolas Bolduc, diretor de fotografia dos visualmente audazes Enemy e War Witch, capta na integra todas as texturas esbranquiçadas do gelo que ameaça quebrar a qualquer momento por uma narrativa que, apesar de muitos deslizes, se acaba por encontrar no final.

Virtuoso na conclusão mas confuso no processo, Aloft dificilmente será recordado com um marco na carreira de uma cineasta que escusava replicar objetivos anteriores, mudando apenas de cenário. Llosa sabe sem duvida rodear-se por alguns dos melhores artistas do cinema contemporâneo, colhendo resultados positivos dessa procura, salvando assim um filme que noutras condições só poderia ser interpretado como umdesaire de uma realizadora de quem muito se espera.


Fernando Vasquez

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