«Casa Grande» por Fernando Vasquez

(Fotos: Divulgação)

Numa altura em que o Brasil atravessa um período conturbado a nível social e politico, não é de estranhar que o Festival de Roterdão, sempre atento às movimentações sociais no planeta, tenha selecionado duas obras brasileiras para a sua competição principal.

Menos surpreendente ainda é o facto de que tanto a Casa Grande de Fillipe Barbosa e Rio Corrente de Paulo Sacramento sejam ambos filmes que retratam alguns dos fenómenos e consequências das transformações radicais que o país atravessou nos últimos anos. Dos dois exemplos, a Casa Grande é possivelmente o mais coerente e maduro.

O filme retrata a história de uma família de classe alta tipicamente brasileira: Casa luxuosa nos subúrbios, 3 empregados negros e colégio privado para os filhos compõem uma imagem mais que comum. O equilíbrio familiar é no entanto posto à prova quando após uma serie de jogadas financeiras de risco por parte do pai, todos os membros da família se vêm forçados a lidar com grandes alterações no dia-a-dia. À medida que se cruzam, as linhas de separação racial e económica que dominam as relações sociais no Brasil, tornam-se sobejamente óbvias para Jean, o filho mais velho, gerando confrontos e uma reavaliação dos valores básicos que até ao momento de crise subjugavam a família.

Na essência este é um filme sobre o fim da adolescência de um jovem, recheado dos clichés habituais e, diga-se, inevitáveis: o despertar sexual, o desafio à autoridade paternal e uma poderosa sede por liberdade. Mas Fillipe Barbosa vai muito mais longe, sendo mesmo possível criar paralelos e metáforas entre o percurso de procura de uma identidade individual por parte de Jean, com o processo de desenvolvimento recente no Brasil.

Embora excessivamente ingénuo em diversos momentos, à semelhança da personagem principal, a Casa grande reveste-se de uma genuinidade cativante já que se trata de uma história autobiográfica, inspirada nas experiências que o próprio cineasta viveu dentro do seu seio familiar. Este conhecimento em primeira mão permitiu a Fillipe Barbosa desenvolver diálogos e situações que para além de autênticos saboreiam-se de forma extremamente real.

As performances do veterano Marcelo Novais e do estreante Thales Cavalcanti são igualmente de louvar, desenvolvendo duas personagens imensamente ricas e multidimensionais, em constante e progressivo rebuliço interno, mas sempre sobriamente condicionadas pela sua própria fragilidade.

A questão racial sobrepõem-se a todas as outras temáticas em Casa Grande. Ao longo do filme existem várias referências à criação de uma lei que exige cotas raciais nas inscrições em universidades publicas, gerando várias debates, uns mais incendiários que outros, na escola e mesa de jantar da família. Estas discussões expõem de forma bastante clara as diferentes correntes de pensamento em relação à divida moral que a elite brasileira ainda hoje tem para com a comunidade negra.

Seguramente o filme não é uma exceção pelo facto de abordar tal tema, mas ao fazê-lo de forma tão consistente, simples, direta e perspicaz acaba por nos oferecer um retrato de uma família (leia-se nação) confusa mas sedenta de mudança.

Apesar de Fillipe Barbosa não ser um total desconhecido nestas lides, já que as suas curtas-metragens, em particular Beijo de Sal, tenham alcançado um sucesso muito significativo nas Américas, com esta sua primeira longa-metragem deixara muitos ansiosos pelo que poderá vir a fazer no futuro.


Fernando Vasquez

Últimas