Essa história de um ingénuo barman/pintor de grafitti, Arnav (Ori Hizkiah), metido numa grande confusão após um homem sequestrado ser escondido perto da sua casa tem dois pontos de interesse. Como fait divers, o realizador Avi Nesher conseguiu construir, sem se levar muito a sério, uma intricada trama repleta de mistério.
Na base está a interligação das trajetórias do seu protagonista desavisado, de um misterioso e rude detetive privado vivido por Adir Miller (cujo nome, Jacob Gittes, é uma brincadeira com o Chinatown de Polanski) e até uma verdadeira femme fatale (Yuval Scharf). O enredo é completado por um líder de uma seita religiosa e pelos homens que a exploram como negócio.
Mas, mais do que isso, para além dos curiosos contrastes explorados entre a visitante de Telavive e a forma como estes vêm a explosiva Jerusalém, é o impiedoso e irónico retrato do mundo religioso de Israel que se constitui na maior qualidade do filme. Num dos diálogos, por exemplo, o protagonista é informado de que não haveria problemas naquele dia porque os sequestradores/torturadores não trabalhariam pois era o sabbath, ao que ele comenta: “sim, podem tornar a vida dos outros num inferno no resto dos dias, exceto no sabbath“. Quanto aos demais, são invariavelmente retratados como vigaristas, manipuladores e gananciosos.
Com um argumento a meter o espectador num grande imbróglio, onde já não se sabe quem é quem, Nesher não pode ser acusado de falta de ambição ao apresentar uma receita que inclui mistério, comédia, romance, crítica social, animação e até toques de surrealismo! Se, com tantos ingredientes era difícil sair com algo equilibrado, pode-se dizer que, entre mortos e feridos, The Wonders é uma diversão razoavelmente inteligente.
O Melhor: a crítica social e os momentos de humor
O Pior: os excessos rocambolescos do argumento

Roni Nunes

