Aquilo que torna mais belo este filme de Abdellatif Kechiche sobre amor e romance é aquilo que já se viu milhares de vezes – ou seja, a forma com duas pessoas apaixonam-se, constroem um relacionamento e sofrem com ele. Baseada na história de uma novela gráfica francesa, Le Bleu est une Couleur Chaude, de Julie Maroh, a obra aborda a relação entre duas estudantes, uma de literatura e depois educadora, Adèle (Adèle Exarchopoulos), e outra de Belas-Artes e futura pintora, Emma (Léa Seydoux).
Muito diferente da história original, para Kechiche pouco ou quase nada importa que o objeto da paixão (correspondida) de Adèle seja outra mulher. O tema da homofobia ficou relegado a segundo plano: o que interessa aqui é o relacionamento entre as duas, construído de forma milimétrica e através de um tempo muito próprio, longo, mas jamais entediante. Neste sentido, não é exagero dizer que ele reinventa e traz um verdadeiro sabor de descoberta a sentimentos de paixão, amor e sofrimento – alcançando momentos de maravilhosa intensidade e sem o peso mórbido e depressivo de tantos exemplares do cinema de autor.
Desde o despertar da protagonista mais jovem até o seu envolvimento com Emma, seguem-se belos planos de gestos, olhares e de quase impercetíveis variações na expressão facial – para além dos diálogos que nas suas citações de Malraux, Sartre, Chordelos de Laclos, entre outros, vão situando os temas em causa. A fluidez da abordagem é inegável, fazendo com que não se notem as suas três horas de duração e terminando por ser um daqueles filmes que permanecem vivos no espírito de quem o assiste bem depois de terminada a projeção.
Por outro lado, ao eliminar completamente a componente trágica e mais emocional da história original de Maroh, Kechiche deixou menos conflitos para o seu enredo e solucionou a sua história de uma forma incrivelmente sem graça. Assim, as longas cenas dos dias maus da protagonista só não são dispensáveis porque a prepara para uma sequência extraordinária passada num café – onde a atriz Adèle Exarchopoulos põe a cereja no topo do bolo de uma prestação arrepiante. No filme como um todo, auxiliada por uma Seydoux impecável, ela torna possível a Kechiche inserir numa outra dimensão alguns dos temas mais vulgarizados de sempre.
O Melhor: Adèle Exarchopoulos. A intensidade da abordagem de Kechiche
O Pior: o conflito demasiado simplificado no último terço

Roni Nunes

