«Sieniawka» por Roni Nunes

(Fotos: Divulgação)

Será eventualmente o exercício mais radical a aportar pela mostra competitiva desta edição do Lisbon & Estoril Film Festival. Dividido em duas partes, cuja primeira é retomada no fim, Sieniawka começa pelas ruínas de um mundo pós-industrial, muito presente numa utilização ostensiva do ruído fabril, onde um fugitivo de um manicómio luta pela sobrevivência com outros sem-abrigos.

No final deste trecho há um mendigo que conta uma história sobre os habitantes de uma aldeia próxima que utilizam um lago, escolhido pela grande profundidade, para afogarem os seus gatos vadios “por não terem como cuidar deles”. Esta história aparentemente fortuita na verdade introduz o que virá a seguir – a minuciosa descrição da vida de um asilo, um lugar para onde o mundo exterior livra-se das suas peças derrotadas ou simplesmente gastas.

A partir deste corte brusco, o realizador polaco Marcin Malaszczak, na sua obra de estreia, adentra pelo mundo de decrepitude e da decadência, onde não tem problemas em sintonizar os enormes tempos mortos da sua abordagem com a perceção temporal dos idosos. Por outras palavras, o filme entra em simbiose com um mundo dominado pela letargia, pelas mãos trémulas, pelo imobilismo e pela insanidade – criando ele próprio um universo com um ritmo muito próprio. Os planos são longuíssimos e dissecam a rotina dos internos, onde vasos de flores coloridas e iluminadas, programas televisivos, música eletrónica e até os quadros na parede servem para contrastar com a sua vivacidade o universo em declínio que retrata.

Sieniawka tem ecos, aqui e ali, das provocações apocalípticas de Leos Carax, com as desconstruções godardianas da linguagem (a banda sonora ostensiva e fora de lugar) com citações ainda a Antonioni (a célebre sequência final de Blow Up é revivida aqui durante um piquenique). Apesar da sua singularidade e do caráter enigmático, o facto de ser a primeira obra do realizador torna-se notória na forma sem maiores compromissos, em relação ao espectador, com que insiste em repetir planos de significação relativa, atolando-se na redundância e na duração excessiva. O final, onde se destaca ao fundo uma cidade devastada por um cataclismo, subsiste em meio aos escombros uma bandeira da Polónia, fazendo ecos a um diálogo a meio do filme sobre a introdução da democracia no país. Com totalitarismo ou não, Malaszczak não parece ver um futuro radioso para a sua pátria…

O Melhor: o caráter provocador e enigmático
O Pior: os excessos e as redundâncias da narrativa


Roni Nunes 

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