«Um Fim Do Mundo» + «Cama de Gato» + «Bela Vista» por Roni Nunes

(Fotos: Divulgação)

Um Fim Do Mundo*

Quatro jovens de um bairro social de Setúbal, a Bela Vista, fazem aquilo que é suposto na sua idade: circulam por parques de diversões, escolas, urbanizações e locais proibidos (um hotel de luxo) onde flertam, riem, dedicam-se ao corte-e-costura, cometem pequenos delitos ou, simplesmente, não fazem coisa alguma. Tudo culmina numa longa sequência na praia, onde a vida se desenrola em meio a muita conversa de “chacha”, risos, brigas, insultos e até agressões. Um artifício dramático esperto, embora não de todo explorado, o do assalto a um supermercado, enquadra as idas e vindas dos seus personagens.

Esse registo entre o documental e a ficção alcança um resultado de tal forma sólido que contorna por outra via aquilo que é o grande calcanhar de Aquiles do cinema português com pretensões comerciais mínimas: a arte de contar uma história de forma atrativa e não atribulada.

O realizador Pedro Pinho segue nas pegadas da produtora Vende-se Filmes (de Filipa Reis e João Miller Guerra, que coproduzem a obra e assinam as duas curtas-metragens que a acompanham) e vai buscar ficção fazendo o trajeto inverso ao procedimento habitual. Por outras palavras, os personagens surgem de uma convivência íntima com os habitantes do bairro, técnica legada do chamado “cinema-verdade” dos anos 60 e cujo um parente muito próximo, A Malta e Eu, de Michel Gondry, estreou por cá recentemente.

Apesar dos limites evidentes do modelo, faltando aqui um rompimento maior com o documental para que o resultado tivesse uma transcendência maior, Pinho fez um filme de grande eficácia e evitou cair na armadilha de um registo autodidata como Até Ver a Luz, de Basil da Cunha. Neste caso, o resultado ficava comprometido com uma atabalhoada tentativa de alargar os parâmetros da não-ficção através de elementos tarantinescos. Sem falhas e com uma fotografia em preto-e-branco que valoriza o realismo da obra, tem-se aqui o melhor trabalho de ficção português de 2013 – num ano terrível, mas onde, como aqui fica provado, a falta de dinheiro não é a única explicação para a ausência de bons filmes.

O Melhor: uma execução de grande eficácia
O Pior: não consegue escapar dos limites da proposta para ser atingir uma dimensão maior

(*) Cama de Gato e Bela Vista acompanham algumas sessões de Um Fim de Mundo.

CAMA DE GATO

Embora a ser exibido, por opção dos responsáveis, como um complemento de algumas sessões de Um Fim do Mundo, Cama de Gato tem apenas cinco minutos a menos. Isso interessa porque a sua leitura pode obedecer os mesmos critérios de uma longa-metragem.

A história aqui é a de uma jovem (Joana Santos), que aparece por uns poucos segundos em Um Fim do Mundo a fazer comentários racistas, numa pequena participação que não passa desapercebida. Aqui, por outro lado, o que não lhe falta é tempo de antena. Joana é uma muito jovem mãe solteira que não tem a sorte dos seus pares do filme anterior, que podem gastar o seu tempo tanto a fazer coisas palermas como a não fazer coisa alguma.

Cama de Gato extrai toda a sua graça a mostrar como ela lida com uma maternidade precoce: ao mesmo tempo uma mãe presente e dedicada à sua maneira, não deixa de ser ela própria uma criança – privada de convívios típicos dos jovens da sua idade pelos seus próprios pais, que lhe exigem responsabilidade.

O principal defeito deste filme e estar todo ele centrado numa única personagem que, se por um lado demonstra ter envergadura para isso, por outro lado limita um tanto o resultado final. As variações e reviravoltas em torno do pequeno/grande mundo de Joana muitas vezes fazem a obra girar em torno de si própria e ser, em alguns instantes, redundantes.

O Melhor: retrato sensível do fim da infância com o amadurecimento forçado
O Pior: Excessivamente dependente da sua “estrela”

BELA VISTA

O esbanjamento de vitalidade dos dois trabalhos anteriores torna claramente low profile essa curta sem diálogos e repletas de imagens algo clichés do bairro de Setúbal. Bela Vista é uma quase uma coleção de fotografias que circula entre o pitoresco e o banal, mas onde falta um significado maior que justifique algum entusiasmo.

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