A recentemente bonança financeira do cinema Latino-americano tem tido resultados pouco esperados. O investimento feito no audiovisual na última década coincidiu com o surgimento de uma corrente minimalista que se tem revelado pouco apelativa na grande maioria dos casos, com resultados catastróficos nas bilheteiras, mistos na crítica e uma dificuldade notória no momento da internacionalização e consagração das obras. No entanto, como sempre, existem exceções. De todos, o caso de maior sucesso é talvez o do jovem realizador Sebastián Silva.
Igualmente conhecido pelo seu trabalho como artista plástico, o chileno – que em 2009 surpreendeu o mundo com La Nana – é um dos grandes nomes do momento, após ganhar o prémio de melhor realizador em Sundance com The Crystal Fairy, de estrear com sucesso em Cannes, e agora aqui em Sitges, do seu segundo filme de 2013, Magic Magic.
Magic Magic relata-nos o progressivo declínio mental de uma jovem norte-americana, Alicia, que a convite de Sarah, sua prima, viaja até ao sul do Chile para umas férias nas montanhas. A jovem atravessa um período difícil, obrigada a viver num perpétuo estado de insónia que aos poucos lhe faz perder a noção da diferença entre realidade e fantasia. Para isso muito contribui o comportamento infantil e sádico dos seus colegas de férias, tal como a distância emocional da sua prima, também ela a atravessar um momento complicado graças a uma gravidez indesejada. O frágil estado mental da protagonista, que se transforma num surto psicótico, e os costumes e superstições locais, que se revelam insuficientes e desadequados para lidar com a situação, inevitavelmente encaminham-nos para um final trágico.
Desenganem-se aqueles que leem nestas linhas a descrição de um slasher com gore. O cenário e personagens são sem dúvida do mais estereotipado possível, mas Sebastián Silva tem a lucidez de nos levar por uma direção quase oposta. Magic Magic é uma experiência psicológica perturbante, já que nos obriga a vestir a pele de uma existência instável e em constante sofrimento, onde nada é o que parece e a ilusão e a manipulação do que vemos joga um papel fundamental.
O realizador chileno não o esconde de forma alguma, enchendo mesmo o écrã com ilusões de ótica que nos turvam a visão e perspetiva de uma forma deveras simples mas destemida. Tal como Alicia, somos de certa forma medicados com a receita de um cineasta que procura muito mais do que uma mera narrativa, mas sim uma experiência transcendental e hipnotizante, inesquecível no bom e no mau sentido.
Igualmente marcante é a tensão sexual entre as personagens, chegando mesmo a assumir ecos pervertidos e doentios, ajudando em muito a sensação de perigo iminente que nos força a pregar o olhar na ação, ou melhor ainda, na possibilidade de explosão de ação.
Tal não seria possível sem uma corajosa performance de Juno Temple e Michael Cera. Este último, longe do perfil que nos habituou em comédias indie como Juno e Superbad, mostra-se em Magic Magic mais versátil e poderoso, no papel de um expatriado privilegiado que deambula entre o perigoso e a fragilidade extrema.
Embora arrojado e eficiente no seu total, é inevitável não reconhecer que no filme o resto das personagens são demasiado simplistas, em particular Augustin, namorado de Sarah, cujo papel, ora de vilão, ora de herói, é pouco convincente, apenas presente por razões estéticas. Igualmente dececionante é o facto da temática do aborto forçado da prima de Alicia, que domina a relação com o parceiro, ser completamente e inexplicavelmente abandonado a meio do filme.
Seguramente não faltará gente a quem Magic Magic se revelará como uma experiência insuportável, já que o filme é extremamente eficaz na manipulação do estado emocional de todos os que se sujeitarem a ele. Dito isto, por esta mesma razão, em particular pela forma como é capaz de nos influenciar também fisicamente, outros serão capazes de compreender e aceitar que Sebastiàn Silva é um cineasta visionário e um resistente na região, a par de nomes como Amat Escalante, Dominga Sottomayor e Sebastián Lelio.

Fernando Vasquez

