O cinema holandês vive uma fase interessante, com vários jovens realizadores, como David Verbeek e Sacha Polak, a causarem sensação em grandes festivais internacionais. Mesmo sem grande oferta, este ano os Países Baixos não poderiam estar mais bem representados em San Sebastián, já que Wolf, de Jim Taihuttu, em competição na secção Novos Realizadores, tem vindo a ser alvo de louvores e muita especulação sobre as suas potencialidades como grande vencedor.
Centrado na ascensão de um kickboxer marroquino, Wolf oferece-nos um retrato de uma geração inteira de jovens imigrantes rendidos ao mundo do crime. No ringue, Majid Holandako, personagem principal, é inquestionavelmente talentoso, sem que nenhum opositor seja capaz de lhe fazer frente, apesar do temperamento demasiado quente que o domina com facilidade, roubando-lhe vitórias merecidas. Fora dele a história é outra. As circunstâncias familiares cercam-no com preocupações e a necessidade de reações impulsivas e rápidas. Com um irmão vítima de cancro, preso a uma cama de hospital, e uma figura patriarcal que não lhe reconhece o seu verdadeiro valor, o jovem lutador junta-se a um gangue turco precisamente no momento em que lhe é oferecida a grande possibilidade de se tornar lutador profissional. A lutar em tantas frentes, Majid vê-se envolvido num combate impossível.
O ringue de kickboxing é, até certo ponto, secundário nesta obra, apesar de Wolf exibir algumas das mais impressionantes cenas de luta dos últimos anos. Acima de tudo, este é um filme sobre a luta interna de um jovem cheio de boas intenções e bem mais sensato que todos os membros do seu grupo, mas sem as ferramentas e possibilidades que lhe permitam seguir um melhor caminho.
Por um lado o filme debate-se com o velho e sempre controverso tema de imigração, apresentando-nos duas gerações que não podiam ser mais opostas e, como tal, em constante conflito. Por outro, exemplifica na perfeição a impossibilidade de rejeitar as raízes por completo, já que a etnia e as circunstâncias sociais estão perpetuamente ligadas às oportunidades demasiadamente escassas que obrigam a medidas extremas.
No processo descobrimos muito sobre a Holanda moderna, muito longe do cartão postal recheado de campos floridos, canais rústicos e uma população alta e loira. A Holanda segundo Taihuttu é urbana, decadente, multicultural, violenta e impiedosa.
Jim Taihuttu não parece oferecer grande resistência à tentação de muitos dos clichés do género, sem nunca exagerar em demasia. Apesar de serem uma distração escusada, na realidade a tensão acumulada ao longo do desenrolar da história não é em nenhum momento afetada por esta falha.
O grande triunfo de Wolf é precisamente esse. O ritmo frenético e a performance madura de Marwan Kenzari, no papel principal, permitem ao filme manter uma vital dose de realismo e sentido de urgência. O preto e branco é neste caso uma escolha em cheio, já que disponibiliza uma quantidade saudável de ficção numa história que tem muito de real.
Com a sua primeira e ambiciosa longa-metragem, o jovem holandês apresenta-nos alguns ecos do que poderá vir a fazer no futuro, ao qual o mundo do cinema deve dedicar muita atenção.

Fernando Vasquez

