A estreia de um filme musical, ainda para mais australiano, em salas nacionais é sempre algo digno de monta. Apostando numa estrutura simples, divertida e atual, A Deusa conquista os seus espectadores em poucos segundos. Vemos uma mulher rodopiando feliz numa colina verdejante, em tudo semelhante a Maria em Música no Coração quando de repente… duas crianças e algum estrume de vaca interrompem o momento de magia. É assim que conhecemos Elspeth Dickens, mãe de dois gémeos traquinas, pouco adaptada à vida do campo, com um marido ausente, e sem família ou amigos nas redondezas.
É no meio de mais uma ausência do marido que Elspeth descobre o fascínio da internet e para matar o bichinho das cantigas cria uma rubrica de Sink Songs (Canções de lava loiças), diretamente da sua cozinha, para o mundo. Claro que os vídeos se tornam virais e nada tardará para que Elspeth receba um convite irrecusável do mundo da publicidade. Enquanto tudo isto acontece, o filme não deixa de alfinetar, ainda que com alguma ligeireza, a dependência da “reality TV“, ou neste caso, web, em detrimento de inúmeros aspetos da sua própria vida real.
Embora em momento algum A Deusa seja particularmente inovador, acaba por compensar alguma previsibilidade com um inquestionável charme e um sentimento de “boa onda” durante todo o filme. A protagonista Laura Michelle Kelly consegue ter uma presença encantadora e embora quase sem tempo de ecrã juntos é bem acompanhada pelo cantor Ronan Keating (antigo membro dos Boyzone que prosseguiu carreira a solo) e que aqui faz a sua estreia no cinema.
Sem grandes desenvolvimento no argumento além dos dilemas entre a vida profissional e pessoal da “mulher moderna“, o filme vai sendo alimentado pelos seus diversos números musicais – alguns francamente mais eficazes que outros – até ao ato final. Mesmo com passos seguros, não deixa de ser um deleite para os amantes de musicais. Sem o arrojo de As Aventuras de Priscila – Rainha do Deserto, musical australiano data de 1994 (dá para acreditar?), ou sem toda a energia do mais recente Mamma Mia, A Deusa é um filme a ver, mas reservado a amantes de musicais. Quanto aos restantes, o melhor é passar ao lado.
O Melhor: Laura Michelle Kelly.
O Pior: O casal Dickens poderia ser um pouco mais flexível.

Carla Calheiros

