San Sebastián: «Canibal» por Fernando Vasquez

(Fotos: Divulgação)

De todos os filmes na competição oficial deste ano em San Sebastián, Canibal, de Manuel Martín Cuenca, foi provavelmente aquele que mais expetativas gerou. Cuenca é um dos meninos bonitos do festival, tendo ganho mesmo o prémio Sebastian no certame em 2005 por Malas Temporadas. Praticamente todas as suas obras passaram pelo festival, sendo sempre alvo de louvores, inclusive, alguns por vezes exagerados.

Desta feita o realizador espanhol trouxe um filme que, para além de dificilmente se poder descrever como consensual, parece estar destinado a um rumo muito diferente do passado.

Canibal conta-nos a história de Carlos, um alfaiate de Granada que por detrás de uma aparência de cidadão exemplar guarda um grande segredo: na realidade é um monstro psicopata, assassinando mulheres para mais tarde as comer. Após matar Alexandra, a sua jovem e atraente vizinha romena, Carlos é surpreendido pela chegada de Nina, irmã da vítima, cuja inocência acaba por seduzir Carlos ao ponto de o fazer questionar internamente sobre os seus atos.

Para desilusão de muitos, o filme é no fundo uma narrativa romântica incrivelmente insossa, em que o tema do canibalismo assume um relevo absolutamente secundário, focando-se acima de tudo na história de um homem extremamente solitário que se rende lentamente ao charme de um amor imprevisto. É pena que Cuenca tenha preferido este rumo, porque se existem momentos em que é possível sentir o pulsar do filme é nas breves passagens em que Carlos persegue e destrói as suas vítimas.

A relação amorosa é pouco convincente e a falta de caracterização das personagens é notória. Em nenhum momento descobrimos quem de facto elas são, nem o que as motiva a reagirem da forma como reagem. São ambas demasiadamente frias e vazias para despertarem seja que sentimentos for da audiência. Carlos em particular apresenta-se como uma personagem deveras incompleta. Se é compreensível que exista uma certa dose de mistério em seu redor, mais difícil de aceitar é o facto de que a sua postura seja pouco ou nada ameaçadora.

Igualmente perturbante são as conotações religiosas que Cuenca tenta imprimir ao filme, sem que se deslumbre a sua pertinência, como se o realizador estivesse ele próprio à procura de um sentido e razão de ser da sua obra.

Obviamente que nem tudo é mau em Canibal. Alguns dos planos são esteticamente burilados e merecedores de destaque, resultado de uma fotografia sólida de Pau Esteve Birba.

Canibal promete muito mas falha a vários níveis, não justificando o esforço que o ritmo penosamente lento exige do seu público ao longo de quase duas horas. Apesar de todas as expetativas parece que o mais recente trabalho de Cuenca está mais destinada a ser a grande desilusão do festival.


Fernando Vasquez

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