Estará o cinema lésbico a encontrar mais rapidamente e mais eficazmente novos caminhos? O dia 2 do Queer Lisboa terminou um pouco com esta pergunta mental, com a qual questionei algumas pessoas, todas elas acabando por concordar. De facto, os dois melhores filmes da edição do ano passado – os magníficos Without e She Monkeys – tinham como característica comum serem protagonizados por mulheres, mas também o facto de serem filmes onde o rótulo queer lhes assentava apenas pela ousadia com que contavam as suas histórias e pela fuga completa ao cliché da historiazinha do coming out (e de facto, podemos dizer que ambos os filmes tiveram uma carreira “festivaleira” de grande sucesso por todo o mundo por serem mais do que filmes lésbicos).
Podemos juntar a pancada violenta de Concussion, a estreia em cheio da produtora comercial Stacie Passon no circuito das longas-metragens, à lista desses filmes, os verdadeiros transgressores dentro de um Festival Queer que, ironicamente, ainda se rege por muitas regras. Focando-se numa dona de casa que vai ficando mais e mais desesperada – desespero acentuado por uma bolada que recebe de um dos filhos – Concussion desde logo arruma a questão LGBT para um canto em 5 minutos ao mostrar uma “família moderna“, como a malta lhe chama. Abby (que posteriormente se chamará Eleanor) é a dona de casa, casada com outra mulher, mãe de dois filhos, e responsável por remodelações de casas. A pancada na cabeça acaba por lhe trazer uma revelação: precisa de respirar, e para tal consulta os serviços de uma “call girl” – até perceber que, o que precisa é mesmo de ser ela a receber clientela.
Antes que o espectador consiga pronunciar Belle Du Jour com o sotaque certo, lá está ela, a viver uma vida dupla (aqui sim, o dilema queer clássico!), algures entre a fantasia e a realidade. Não, não há aqui grandes toques de surrealismo ala Buñuel, porque Passon prefere – e bem, neste caso em concreto – centrar a história em terra firme, concentrando-se no rol amachucado de prioridades desta personagem quebrada, no fundo à procura de uma retribuição emocional de quem mais ama nos sítios errados e com as pessoas erradas. O efeito dilacerante deste filme deve-se também (e sobretudo?) à outra revelação feminina do filme – Robin Weigert (Deadwood), que é simplesmente extraordinária no papel de Abby/Eleanor, abanando-nos com a sua capacidade de entrega e transferência. Aliás, o restante elenco, composto por conhecidos que queremos desesperadamente voltar a ver, é incrivelmente sólido.
É uma escalada (ou uma queda, melhor) sempre fascinante de se observar, e até potenciadora de mudanças de paradigma como o melhor cinema nos oferece. Concussion, tal como Without e She Monkeys no ano passado, deve ficar arredado dos prémios principais, mas ao segundo dia, temos já um motivo para rejubilar.

André Gonçalves

