Queer Lisboa 2012:«Without» por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

Realizado por Mark Jackson, em «Without» acompanhamos uma jovem traumatizada com eventos na sua vida e que encontra num emprego numa região isolada o escape para essa situação (para além da ajuda monetária do que precisa). Esse trabalho consiste em ajudar um idoso em estado vegetativo. Sem Internet ou rede no seu telemóvel, a jovem começa a desesperar no isolamento, a entrar em estado paranóico no que diz respeito ao homem de quem está a cuidar, entrando derradeiramente numa vida rotineira em que as suas próprias fronteiras começam a balançar entre a culpa e o sentimento de perda.
 
Contemplativo quanto baste, sem nunca abusar com planos longos demasiado virados para o seu próprio umbigo (como é comum neste género de obras), esta desconstrução de uma personagem feminina com um sentimento de culpa agoniante funciona principalmente devido à interpretação coerente e carismática de Joslyn Jensen, uma jovem que varia entre a ingenuidade, a curiosidade mas também a paranóia e a crueldade (numa evolução credível).
 
Na sua relação com o idoso, há momentos verdadeiramente arrepiantes, quer seja de cariz sexual reprimido quer sejam pela pura falta de intimidade e até vergonha. Mas não se pense que tudo é um bicho de sete cabeças, pois também há elementos muito simples, como a ausência de paciência inerente à idade. O seu isolamento de verdadeiro contacto com outras pessoas cria também uma rotina paranóica (o fazer exercício, o ir comprar comida fora) que o cineasta Mark Jackson vai capturando lentamente e sem pressas até que chega um último terço repleto de neuroses prontas a serem expelidas de forma muitas vezes cega. Quando chega ao final e a família do idoso regressa, e com ela um sermão, surge então a estocada final que nos transporta para uma espécie de humor negro como se fossemos cúmplices desta jovem em busca de lucidez.   

O Melhor: A realização de Mark Jackson é muitas vezes contemplativa sem cair no pedantismo ou na gratuitidade abstracta pseudo-intelectual.
O Pior: Nada a apontar
 
 
Jorge Pereira
 

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