Filme denso e que extrapola os limites de género – ficando pelo terror apenas os requintes de sadismo por conta de um zombie capturado por dois homens e uma mulher que estoicamente sobrevivem entrincheirados a uma hecatombe indeterminada no mundo exterior. A manutenção dos três é garantida por expedições esporádicas, nunca mostradas, ao lado de fora. Primeira longa-metragem do germano-argentino Christoph Behl, que em 2004 recebeu uma menção honrosa no Festival de Berlim pela sua curta-metragem Público/Privado.
O filme não tem início e, de certa forma, nem fim: esse ciclo de cunho tão abstrato quanto absurdo lembra diretamente os pressupostos dos existencialistas dos anos 60. Um dos seus livros célebres, A Peste, de Albert Camus, fazia a mesma suposição: como lida o ser humano com uma vida sem os pressupostos de ordem que sustentam a aparência de realidade e que lhe asseguram o mundo concreto?
À semelhança também do fim do mundo segundo Abel Ferrara no seu 4:44 Último Dia na Terra, aqui a sobrevivência à espera de um término inevitável (embora não declarado) pressupõe o que fazer do tempo que resta. Isto exige, obviamente, a criação de uma rotina que pressuponha um alheamento consistente. Mas há um agravante: um triângulo formado por dois homens e uma mulher, onde um deles é namorado dela, não é nem de longe a equação certa para uma relação de equilíbrio. Assim, a despeito do que se passa lá fora e das tentativas de estabelecimento de uma ordem social entre o grupo, a tensão sexual e afetiva é levada aos limites.
Esta claustrofobia emocional é beneficiada por uma construção sem máculas, com o filme ressentindo-se apenas do desgaste dos recursos que Behl dispõe para manter esse universo em funcionamento. É o que demonstra o reiterado uso das filmagens que os personagens fazem numa espécie de confessionário que permite a pelo menos dois deles uma saída psicológica para o claustro.
O Melhor: uma construção quase sem falhas e a dimensão existencial do apocalipse
O Pior: alguns recursos levados à exaustão, como o uso das gravações como escape emocional

Roni Nunes

