Biografias de poderosos cujos laços afetivos naufragam no materialismo e no hedonismo desenfreado já vão criando uma vasta tradição no cinema – algo que remonta a um dos seus primeiros pilares transgressivos, o Citizen Kane de Orson Welles. Ligados à indústria do sexo, Larry Flynt e John Holmes já mereceram biopics de qualidade (por Milos Forman e Paul Thomas Anderson, respetivamente), assim como o clima decadente de ascensão e queda ligado à cocaína são uma marca fundamental do cinema de Martin Scorsese.
Um dos mais prolificos e versáteis realizadores do mundo, o inglês Michael Winterbottom, não se preocupou com a concorrência e enveredou por uma biografia em tons tradicionais do empresário Paul Raymond, vivido por Steve Coogan, na sua quarta colaboração com o realizador. Nascido Geoffrey Quinn numa família pobre de Liverpool, ele abriu no Soho, o famoso bairro londrino, o primeiro clube de strippers de Inglaterra, fundou a primeira revista pornográfica e, em 1992, era considerado o homem mais rico do país.
O argumento de Matt Greenhalgh (responsável pela biografia de Ian Curtis, “Control”) coloca no início aquele que será o único conflito realmente a seguir no filme: o que terá acontecido à filha de Raymond, Debbie, e que, previsivelmente, logo demonstra ser um falhanço no único laço afetivo no qual este empresário implacável realmente investiu.
No restante e apesar ser um trabalho tecnicamente sólido, característica do cinema de Winterbottom, o filme ressente-se de um registo à meio-gás e onde os altos e baixos da vida de Raymond não experimentam uma grande variação de tom. Esse problema afeta particularmente alguns momentos dramáticos que ficam esvaziados de impacto – como a cena onde Debbie está a dar a luz e pede cocaína ao pai ou a da sua festa de casamento que, segundo um convidado, “mais parecia um funeral“.
Embora disto resulte um certo desinteresse e alguma previsibilidade, o esforço não é de todo perdido, conseguindo mesmo assim abordar questões diversas, como a relação arte-pornografia-dinheiro e produzir eficazmente aquele que é o principal efeito pretendido – o de contrapor o sucesso financeiro à fragilidade afetiva.
O Melhor: suficientemente eficaz
O Pior: o tom monocórdico

Roni Nunes

