Veneza: «Palo Alto» por Fernando Vasquez

(Fotos: Divulgação)

Pertencer a uma longa dinastia de sucesso será sempre uma posição agridoce. Se por um lado as portas se abrem com inquestionável facilidade, por outro as expetativas são frequentemente arrasadoras. Assim acontece com várias famílias, mas quando o apelido é Coppola a situação assume proporções a roçar no ridículo.

Gia Coppola é neta de um nome essencial na história da cinematografia, sobrinha da realizadora mais celebrada da sua geração e prima de um dos atores que mais marcaram as duas últimas décadas do cinema (Nicolas Cage). Apesar das tentativas mais que falhadas de outros membros da família, Gia parece determinada em seguir as pisadas das duas gerações que lhe antecedem e diga-se com alguma convicção.

Para ser honesto o resultado, Palo Alto, tem tanto de bom como de mau.

Baseado numa série de contos escritos por James Franco, que em 2013 parece estar tresloucadamente a tentar bater o Recorde mundial de participação em filmes, Palo Alto conta-nos pedaços da história de um grupo de jovens classe média dos subúrbios que se rendem com demasiada facilidade ao álcool, drogas, sexo e crime de forma a lidarem com as dificuldades inerentes da adolescência.

Os paralelos com Spring Breakers de Harmony Korine, estreado o ano passado aqui em Veneza, são inevitáveis por estas bandas, no entanto algo desadequados, já que a obra de Korine se reveste de uma criatividade e idealismo fora da norma e a léguas da estreia de Gia Coppola. A verdade é que Palo Alto a nível temático não traz absolutamente nada de novo e nem chega a ser um digno complemento a obras como a de Korine, ou Kids de Larry Clark.

O grande problema é o argumento, que para além de desinteressante e mais que explorado no passado, escorrega em clichés e plágio evidente, como por exemplo na cópia de várias piadas famosas do cómico underground Bill Hicks.

Mas como diz o velho ditado, quem sai aos seus não degenera, e Gia Coppola não é uma total decepção. Visualmente o filme tem uns certos rasgos de génio, com uma fotografia que embora longe de ser inovadora, tem muito de apelativa, capaz de criar ambientes intimistas através de vários close ups e “soft focus“, muito semelhantes ao início de carreira da sua tia, Sofia Coppola, ou a Paranoid Park de Gus Van Sant, que tem potencial para deleitar uma parte significativa da geração Hipster.

A performance de Emma Roberts, no papel de uma rapariga tímida que se envolve com o professor de educação física (James Franco), é digna de referência. Roberts, até agora mais conhecida por papéis secundários em televisão, revela uma subtileza e controlo pouco habitual na sua idade, apenas prejudicada por uma personagem deveras unidimensional.

Palo Alto poderá não ser um arranque em falso por completo, e a inocência que releva em diversos momentos faz parte do charme do filme. Mas inevitavelmente de uma Coppolla o mundo do cinema espera e esperará sempre mais, muito mais.


Fernando Vasquez

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