Veneza: «The Unknown Known» por Fernando Vasquez

(Fotos: Divulgação)

 

Donald Rumsfeld é muito mais do que uma das figuras centrais da invasão do Iraque. Durante as últimas quatro décadas ocupou cargos de relevo dentro de várias presidências na casa branca e pentágono, sempre desempenhando um papel tão delicado como controverso.

Apesar da posição de destaque na cena internacional, do homem em concreto sempre se soube pouco. Para Errol Morris, o documentarista norte-americano que tem vindo a revolucionar o género com filmes multi-galardoados como Fog of War e Tabloid, chegou a hora de desvendar o mistério.

Unknown Known poderá não ser o retrato elucidativo que esperávamos, já que da sua vida privada Rumsfeld revela muito pouco e seria impossível não reconhecer que em vários momentos o documentário levanta mais questões do que oferece respostas. No entanto, este filme representa uma janela privilegiada para interpretar a forma como alguém com tanto poder e influência vê o mundo.

O título, e até certo ponto o próprio filme, baseia-se numa das declarações mais caricatas de Rumsfeld: “Há coisas que sabemos que não sabemos. Há coisas que não sabemos que sabemos. Mas também há coisas que não sabemos que não sabemos“. A retórica e discurso ambiguo da personagem é frequentemente revisitada ao longo do filme, seja pela boca do próprio ou por montagens e gráficos de Morris. Com esta referência Morris manipula subtilmente a narrativa com grande mestria.

À semelhança do que fez com Robert MacNmara, personagem de Fog of War que lhe valeu o Oscar, Errol Morris consegue igualmente apresentar aqui um retrato simpático e humano de alguém frequentemente chamado de “maquina impiedosa“, ao mesmo tempo que lhe oferece espaço e liberdade suficiente para que ele próprio revele muitas das incongruências e falhas no seu discurso e dialética. É importante referir que Rumsfeld é uma velha raposa, um ator por excelência, um comunicador nato e um forjador de informação hábil que conseguiu manipular a opinião pública nacional com enorme facilidade. Em Unknown Known os velhos vícios não estão ausentes, mas a câmara e o estilo de Morris desvenda farsas com uma prodigiosidade impressionante.

Errol Morris, como já nos habituou, prefere não julgar nem condenar, a responsabilidade desse papel compete à audiência. O resultado final é talvez um dos mais interessantes e vitais documentários dos últimos anos, que para além de nos ajudar a compreender aqueles que na última década governaram o mundo, nos disponibiliza informação outrora desconhecida sobre eventos como o 11 de Setembro, a captura de Saddam ou os vários atos de tortura em Guantanamo Bay e Abu Ghraib .

De salientar ainda, a dedicatória de Morris no final do filme à recem falecida lenda da critica de cinema Roger Erbert, que mereceu uma emocionada ovação do publico de Veneza.


Fernando Vasquez 

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