Veneza: «Night Moves» por Fernando Vasquez

(Fotos: Divulgação)

Desde a atribuição do Óscar a Kathryn Bigelow em 2009 que críticos e agentes da indústria se desdobram na procura de razões que expliquem a falta de mulheres realizadoras em lugares de destaque. Se no mainstream a situação é inquestionável, na cena indie norte-americana não podia ser mais diferente. Nomes como Kelly Reichardt, Miranda July e Drebra Granik, entre muitas outras, não só dominam os bastidores como contrariam a tendência em geral. O maior obstáculo é mesmo conseguirem fazer a transição para outros voos.

Kelly Reichardt, com o seu novo filme Night Moves, parece determinada a consegui-lo e mais importante, à sua própria maneira.

Longe do realismo seco de filmes como Wendy & Lucy e Old Joy, que a tornaram numa das “filhas” prediletas de Sundance, Night Moves transforma o discurso cinematográfico de Reichardt, agora mais fluído e ambicioso, e por consequência mais acessível a novas audiências. No entanto, apesar do salto corajoso, dificilmente será suficiente para que cumpra o objetivo que, embora silencioso, é mais que óbvio.

Esta é a história de três jovens ambientalistas que se juntam para formar um núcleo de ação nem sempre coeso, com o objectivo destruírem uma barragem hidroeléctrica. Com raízes profundamente diferentes, Harman (Peter Sarsgaard), Josh (Jesse Eisenberg) e Dena (Dakota Fanning) desenvolvem um plano calculista, que embora bem sucedido acaba por produzir efeitos secundários indesejados, tornando óbvias as diferenças entre cada elemento, tal como a capacidade de cada um em lidar com o imprevisto.

Acima de tudo este é um filme sobre as consequências do extremismo politico e ideológico. Ao contrario de outros no passado, Reichardt tem a lucidez de não julgar as suas personagens, nem polui-las com puritanismos, tão frequentes neste género de filme. A realizadora norte-americana concentra-se em primeiro lugar na tensão do próprio ato, brilhantemente executado e relevando um excelente sentido de inquietação e ansiedade narrativa, uma qualidade desconhecida até agora. Em seguida demonstra uma aptidão nata para o controlo emocional das suas personagens.

Para isso muito contribuíram as performances seguras dos 3 protagonistas. Dakota Fanning em particular mostra-se aqui com enorme maturidade e sentido de timing, no papel de uma jovem de classe alta destemida, corajosa e inteligente.

“Night Moves” conseguiu gerar muita discussão e louvores pelos corredores do festival de Veneza, e diga-se com todo o mérito. O ritmo lento e controlado poderá impedi-lo de se tornar num grande êxito, mas seguramente representara um passo notável na carreira da cineasta, em quem o mundo do cinema cada vez mais deposita grandes esperanças.


Fernando Vasquez

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