Marie tem 26 anos, uma vida familiar complicada e poucas perspetivas de emprego. Tudo parece estar a mudar quando para além de uma entrevista de trabalho agendada, conhece Paul por quem se apaixona. Após a primeira noite de amor com Paul, Marie acorda feliz, apenas para descobrir que passaram 15 anos dos quais nada recorda.
Rapidamente passamos para a vida de Marie aos 41 anos, sem qualquer traço de memória. O filme começa por se aproximar de uma comédia em que, completamente perdida, Marie tenta adaptar-se às suas rotinas, sejam estas a de conhecer a criança que a trata por mãe, o emprego e, claro, Paul, o seu atual e distante marido.
No entanto, enquanto Marie vai conhecendo em quem se tornou, o filme começa a deixar a vertente cómica para tentar abraçar a vertente dramática. Hoje ela é uma mulher implacável profissionalmente, temida pelos seus pares, fria e distante do filho e sobretudo do marido, de quem se está a divorciar.
A Vida de outra mulher marca a estreia na realização da atriz Sylvie Testud, que assina igualmente a adaptação ao cinema do argumento que desde o primeiro momento foi pensado para Juliette Binoche. A atriz não desilude e acaba por compor com competência o papel de Marie, seja na parte inicial mais cómica, seja na vertente mais dramática da história. No entanto, o maior problema acaba por ser o facto de nunca definir muito bem o tom que pretende adotar, descartando o alívio cómico com ligeireza e nunca conseguindo aprofundar o drama o suficiente para que criemos real empatia com Marie.
Outro aspeto que em nada beneficia o produto final é o ritmo desequilibrado da ação, que leva a que em pouco mais de 90 minutos caia em situações aborrecidas e sub-histórias desnecessárias, que acabam apenas por ajudar a seguir o drama de forma morna. Pelo lado positivo fica a reflexão sobre os caminhos que tomamos ao longo da vida e a forma como eles podem chocar o nosso “eu” passado. Apanhado no turbilhão de Marie acaba por ficar o elenco de secundários, sobretudo Mathieu Kassovitz (o eterno Nino do Fabuloso Destino de Amélie), um homem tão destroçado como o seu casamento, mas completamente unidimensional na história.
Com momentos divertidos, sobretudo na sua primeira parte, A Vida de outra Mulher não é um filme desagradável, mas fica longe de ser das melhores propostas do cinema francês recente.
O melhor: A premissa e Juliette Binoche.
O pior: O enorme desequilíbrio de interesse entre as duas partes da obra.

Carla Calheiros

