«Até Ver a Luz» por Roni Nunes

(Fotos: Divulgação)

O Sombra (Pedro Ferreira) é um sujeito com tranças de rastafári que circula pelas noites do bairro intimidado, de um lado, pelo líder de um gangue, Olos (João Veiga) enquanto, por sua vez, faz ele próprio a sua perseguição a outro morador.

Tudo tem a ver com dinheiro. Sem poder sair à luz do dia (por razões mais simbólicas do que concretas), os seus relacionamentos resumem-se a um amigo, Nuvem (Nelson da Cruz Duarte Rodrigues), uma tia (Susana Maria Mendes da Costa) e a pequena Clara (Ana Clara Barros), com quem eventualmente partilha uma iguana.

O realizador Basil da Cunha volta ao universo das suas três curtas-metragens para esta sua primeira longa, sempre a filmar na Reboleira com atores não profissionais e a falar crioulo. Nas andanças do Sombra o filme vai compondo um retrato deste microcosmo dominado por pequenos criminosos, desocupados, músicos itinerantes, bruxos, alcoólicos etc.

Acertando nas caracterizações de personagens muito credíveis, ao mesmo tempo que arranca desempenhos a contento do elenco, o filme tem boas cenas noturnas e enquadramentos interessantes.

Por outro lado, os seus planos fechados servem bem de metáfora para aquele que talvez seja o ponto mais fraco de “Até Ver a Luz”: ao embrenhar-se em demasia por um universo muito particular, sem conceder-lhe uma maior universalidade, Basil da Cunha corre o risco de fazer uma obra para uma audiência muito específica. Com uma estranha mistura de registo social com filme de gangster, o cineasta não evita um resultado um tanto desequilibrado, sendo ainda prejudicado pelo facto de uma cena de grande importância na história, a do tiroteio no edifício abandonado, ser francamente confusa.

O Melhor: a credibilidade dos personagens e seus intérpretes não profissionais
O Pior: falta uma universalidade maior para história e seus personagens


Roni Nunes

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