«Viramundo» por Roni Nunes

(Fotos: Divulgação)

O filme acompanha uma viagem do cantor/compositor Gilberto Gil onde ele faz contato com músicos dos locais que visita, improvisa “jam sessions” e discute identidade e sobrevivência cultural em lugares marcados pelo peso da herança colonial.
Aparentemente a única conexão existente entre países como Brasil, Austrália e África do Sul é de fundo geográfico: todos ficam no hemisfério sul. O caráter arbitrário desta linha horizontal tampouco é negado pelas realidades socioeconómicas bastante díspares entre as três nações. No entanto, são todos locais em que populações autóctones testemunharam a chegada de povos europeus no passado, com enormes consequências para a suas identidades. No caso do Brasil, há o agravante de que outros extratos populacionais derivam de ancestrais para lá levados à força.

Neste périplo, vem ao de cima os diversos apartheids ainda existentes – o económico e subtil no caso brasileiro, o extremamente vivo no caso australiano e outro de doloroso passado ainda muito recente, caso da África do Sul. A perspetiva otimista de Gilberto Gil evita um discurso rancoroso sobre o passado e, principalmente, sobre o presente. Neste sentido é notório, particularmente no caso australiano, a falta de sintonia entre Gil e algumas das personalidades que lá encontra. Muito mais “em casa” está ele na África do Sul, onde facilmente, como defensor da identidade afro-americana no Brasil, encontra apoios e solidariedades espirituais.

Viramundo é uma mistura de observações anticoloniais com arte e, neste sentido, recupera uma espécie de crença a anos 60 no poder transformador da música. Espelho fiel do próprio cantor/compositor, o filme é a tempos positivo, outrora ingénuo, sobrevivendo de se gostar ou não das “sessions“, já que o realizador suíço Pierre-Yves Borgeaud não evita uma certa linearidade e produz uma obra sem maiores rasgos de imaginação.

O Melhor: a música e a coerência do projeto como um todo
O Pior: um registo muito linear


Roni Nunes

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