«Belleville Rendez-Vous» (2003) por Nuno Centeio

(Fotos: Divulgação)

Champion é um rapazinho melancólico adotado pela avó, Madame Souza. Vendo a paixão deste pelo ciclismo, esta oferece-lhe uma bicicleta e obriga-o a treinos aturados. Os anos passam e ele acaba por participar, em plena década de 60, na célebre Volta a França. Durante a corrida, é raptado por dois misteriosos homens vestidos de preto. Madame Souza e o seu fiel cão Bruno partem, então, à sua procura.

A busca leva-os a uma megalópole chamada Belleville, do outro lado do oceano. Aí, encontram as “Triplettes de Belleville”, excêntricas estrelas do music-hall dos anos 30 que decidem tomar Madame Souza e Bruno sob a sua proteção. Graças ao faro de Bruno, lançam-se na pista de Champion e tentam estragar os planos da poderosa máfia francesa. 

Elenco : Jean-Claude Donda, Michel Robin, Monica Viegas

Realizado por Sylvain Chomet

Sylvain Chomet já tirou um curso de artes plásticas (1982), escrevendo e desenhando inúmeras bandas desenhadas, das quais se destaca uma adaptação de Vitor Hugo, “Bug-Jargal”. A sua primeira curta-metragem de animação, intitulada “La Vieille Dame et les pigeons”, foi acabada em 1996 e recebeu largos elogios da crítica (acabando nomeada para o Oscar de melhor curta de animação em 1998). Nessa altura, Chomet tinha em mente criar uma trilogia de curtas inspiradas nessa velha dama.

A segunda foi “Les Triplettes de Belleville”, que acabou por “degenerar” em longa-metragem. “Les Triplettes” conta a história da avó Souza e o seu neto Champion, que ela adota desde muito pequeno. Ao longo do seu crescimento, a avó descobre que o neto é um fervoroso adepto de ciclismo, incentivando-o e comprando-lhe a primeira bicicleta ainda muito novo. Já adulto, Champion acaba por correr no Tour de France mas é raptado juntamente com outros dois corredores e levado para uma gigantesca metrópole, Belleville, onde estará à mercê da mafia francesa. É então tempo da sua avó e o seu fiel cão Bruno empreenderem uma autêntica odisseia para libertar Champion.

Sendo uma história simples, “Les triplettes de Belleville” não é um objecto exclusivamente para o público infantil. Podemos encontrar ao longo desta película diversas evocações e homenagens a figuras como Fred Astaire, Max Fleischer ou Josephine Baker. A música é, aliás, uma constante muito bem conseguida (há até excertos de “Uma casa portuguesa” e outros hits do nosso Portugal, já que a velhota Souza é indubitavelmente de origem lusa). Os desenhos desta animação misturam a mais recente tecnologia 3D com o traço tradicional, numa co-produção entre belgas, canadianos e franceses. O resultado é por vezes espantoso e original. Os personagens, os locais, os objetos ou os atos são caricaturas até ao absurdo, e por vezes o grotesco.

O que seria um navio que parte pelo oceano rumo a outro continente acaba numa autêntica alucinação surrealista de desproporções risíveis, mas muito bem conseguidas. Do lado de lá, Belleville é o oposto dos cenários bucólicos com que Chomet apresentou a França (muito baseada nas suas próprias figuras de infância). Em Belleville encontramos uma estátua da liberdade anormalmente obesa, prédios com alturas inverosímeis, um caos em pulsão decadente. É o retrato crítico do autor à América de desejos sôfregos, ambiciosa até à gula planetária. Os seus habitantes são também eles criaturas obesas, autênticos comedores em série de hamburguers. Mas as bizarrias não se ficam por aqui. A avó Souza vai encontrar em Belleville as três senhoras que dão nome ao filme, e que a acolherão e ajudarão no seu intento de salvar o neto. As “triplettes” eram um grupo de sucesso na sua juventude, agora renegadas para uma condição sub-humana de bairro social degradado, onde se alimentam de rãs apanhadas ao ritmo de granadas nazis. Nem os mafiosos escapam ao traço crítico de Chomet. Os capangas são criaturas obt usa s, quadradas, aparentes paredes de betão, mais pesadas que os próprios carros que conduzem. No meio deste delírio visual as cores presentes são os castanhos evocativos dos anos 30/40.

“Les Triplettes” é uma odisseia para os miúdos e uma sátira inteligente para os graúdos. Um filme que, embora nem sempre consiga manter um ritmo condigno com os seus pergaminhos, vale uma visita ao cinema.

 

 
 Nuno Centeio

 

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