«The Master» (O Mentor) por Carla Calheiros

(Fotos: Divulgação)

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Sempre que estreia um novo filme de Paul Thomas Anderson, é um acontecimento. E não é só por esperarmos anos por novas obras, mas também porque quando se espera que Anderson tenha chegado ao auge, ele consegue superar-se e surpreender.
 
A expetativa em torno de “O Mentor” começou desde os primeiros passos do projeto. Dizia-se que Anderson estaria a preparar um filme sobre a Cientologia e o seu fundador, L. Ron Hubbard, e onde Joaquim Phoenix, vindo de um longo interregno, seria o protagonista. Isto deve ter feito alguns olhos e estômagos rolar em Hollywood, capital mundial do culto da Cientologia, e cujo enorme poder junto da industria tem sido tantas vezes referenciado.
 
Mas desenganem-se todos aqueles que pensaram que Anderson limitaria a sua visão a uma crítica e denúncia dos meandros dessa ideologia. Como tem mostrado até aqui na sua obra, o cineasta cria muito mais do que uma história, cria um filme riquíssimo, que vive sobretudo a densidade das suas personagens. Aliás, “O Mentor” não faz qualquer juízo de valor, não condena nem apoia o culto, nem a dualidade implícita dos seus protagonistas.
 
Situado no início dos anos 50, o filme segue a vida Freddie Quell (Joaquin Phoenix), veterano de guerra, traumatizado pelas vivências dentro e fora do conflito. Ninguém precisa de nos dizer que Freddie é uma personagem sofrida, pois desde a corcunda ao andar, à cara marcada, passando pela dificuldade de dição, tudo em Freddie Quell é claro como a água, e a isto não é alheia a composição a todos os níveis brilhantes que Phoenix faz da agonia constante de Freddie.
 
Aliás, desde o primeiro momento que Anderson não se coíbe de mostrar Freddie como um inadaptado social, com problemas sobretudo ao nível da moralidade e, claro, um gravíssimo problema de alcoolismo adensado pela sua habilidade nata de criar bebidas alcoólicas a partir de quase tudo.
 
É numa dessas noites que Freddie, em fuga após envenenar um velhote com uma bebida, invade um iate. É lá que se cruza com Lancaster Dodd (Philip Seymor Hoffman), um suposto profeta de uma ideologia chamada “A Causa”. Encantado pelas enormes possibilidades que alguém tão problemático com Freddie lhe oferece, Dodd acaba por “adotá-lo” para a sua Causa e para o seu núcleo familiar. 
 
Toda a dinâmica de Dodd e Quell é o coração e a peça central deste filme. O primeiro exercício de Freddie na “Causa” potencia uma das mais marcantes e envolventes cenas do filme, com Dodd a tentar fazer emergir em Freddie alguns dos seus maiores traumas passados.
 
O amor fraternal entre Mentor e pupilo, que nos parece implícito desde início, começa aos poucos a dar lugar a uma obsessão de parte a parte. Freddie faz de tudo para que a palavra de Dodd seja ouvida e respeitada e Dodd acaba por começar a fracionar o seu próprio núcleo em defesa de Freddie, sendo subentendido que o seu interesse poderá ir além dos fundamentos da causa. Aqui emerge Peggy (Amy Adams), a controladora e ortodoxa esposa de Dodd, o “cérebro maligno” da “Causa” que não esconde o seu incomodo perante a presença de um ser que não podem salvar.
 
Não trazendo uma história com grandes avanços, “O Mentor” centra-se sobretudo nos meandros da “Causa”, sendo curioso que nunca conseguimos perceber genuinamente no que acreditam cegamente aquelas pessoas.
 
Philip Seymour Hoffman está brilhante na sua composição de Lancaster Dodd. Longe de ser uma figura caricatural, o Mentor é apresentado como um orador nato, um homem com um charme hipnótico nas palavras, e com uma subtil e refinada capacidade de persuasão. Do outro lado, encontra uma inspiradora interpretação de Joaquin Phoenix, que “ainda cá está”, e ainda bem. Mas desenganem-se os que pensam que Hoffman e Phoenix são os reis dos holofotes, pois Amy Adams aparece soberba, com um olhar que chega a dar calafrios, conseguindo roubar todas as suas cenas as seus brilhantes colegas. O trio está nomeado aos Oscars, Phoenix como ator principal e Hoffman e Adams como secundários, e embora a esta altura do campeonato não sejam favoritos, e arriscar-me-ia a dizer que o trio seria o mais justo vencedor dos prémios.
 
Quanto ao resto, Anderson não descura o mais ínfimo detalhe, cada frame é trabalhada com um requinte extremo e primoroso, embalada pela brilhante banda sonora de Jonny Greenwood dos Radiohead. “O Mentor” é um filme para ver, rever e refletir, e sobretudo para estudar e descobrir a cada visionamento. 
 
O melhor: O trio de atores
O pior: Esperar anos por novos filmes de P.T. Anderson
 
 Carla Calheiros
 

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