«Hitchcock» por Carla Calheiros

(Fotos: Divulgação)

Em 2012, o realizador Alfred Hitchcock teve direito a ter duas biografias a serem trabalhadas simultaneamente: este «Hitchcock» e “The Girl”, um telefilme produzido pela HBO. Embora retratem fases diferentes da vida do realizador, em ambos, Hitch, como gostava de ser chamado, é apresentado como um homem obsessivo: em “Hitchcock” pelo seu trabalho e pela teimosia com que levou “Psycho” ao cinema; em “The Girl” pela forma vingativa e até perversa com que trata Tippi Hedren, estrela de “The Birds” e “Marnie”, durante as filmagens.
 
Mas falemos de “Hitchcock”. Aqui encontramos o realizador num dos pontos altos da sua carreira com o sucesso de “North by Nortwest”, mas que – após ter “perdido” James Stewart e sobretudo a sua diva Grace Kelly – parece desmotivado em encontrar um novo filme. É nesta fase que acaba por ser cruzar com o livro “Psycho”, considerado como literatura de cordel por muitos. O livro conta algumas das peripécias do “serial killer” Ed Gein, o que acaba por encantar Hitch. Contra a opinião generalizada, inclusive da esposa e companheira de trabalho Alma, Hitch insiste em levar à cena esta obra, acabando por pagar do seu próprio bolso aquele que acabaria por ser um dos seus mais reconhecidos sucessos.
 
Como aqui o elemento suspense acaba por não fazer sentido, pois o sucesso de “Psycho” é de conhecimento público, o filme acaba por viver e muito das interpretações de Anthony Hopkins e Helen Mirren como Hitch e Alma. Aliás, Hopkins apresenta-se como um personagem completamente caricatural, centrada no seu trabalho e quase alheada da realidade terrena. Já Mirren, como Alma, representa a ligação à Terra e o senso de responsabilidade do casal. Juntos acabam por formar na intimidade o casal caricato e companheiro que imaginaríamos.
 
Assim, a relação Hitch/Alma acaba por ser o plano principal da obra, acabando por secundarizar inclusivamente a execução do próprio “Psycho”, o que deixa o espectador com alguma água na boca por mais algumas cenas exclusivamente de set de filmagem. No entanto, uma das vitórias deste filme é a enorme vontade com que nos deixa de rever “Psycho”, um filme altamente inovador para a época e onde Hitch acabaria por romper todos os condicionalismos clássicos de estrutura.
 
E embora a transformação de Hopkins em Hitch seja o maior destaque do filme, acaba por não passar despercebida a transformação física de James D’Arcy em Anthony Perkins, pese embora o seu pequeno papel pouco deixe transparecer para além da transformação física.
 
Por isso, e embora o elenco respeitável, tudo aqui acaba por ser acessório, exceto Hitch e Alma, um mero casal de meia-idade, com alguns problemas e humor típico nos casais juntos há muito anos. No todo, «Hitchcock» é assim uma homenagem singela que certamente não impedirá futuras cinebiografias, mas que acaba por ser uma agradável viagem à intimidade de um realizador que ainda hoje motiva curiosidade.
 
O melhor: Hopkins e Mirren
O pior: Esquecer um pouco o set de filmagem e dar personagens meramente acessórias ao restante elenco.
 
 
 Carla Calheiros
 
 
 

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