Em 2007, dizia Quentin Tarantino que queria “criar filmes que lidem com o horrível passado de escravatura da América”. Eis que, passados cinco anos, se materializa o desejo do realizador, com «Django Unchained» (Django Libertado).
O filme conta a história de Django (Jamie Foxx), um escravo no Sul dos EUA por volta de 1800. Separado à força da sua mulher, Broomhilda (Kerry Washington), Django vive uma dura vida de escravatura – até que um caçador de prémios, Dr. King Schultz (Cristoph Waltz), o compra e promete libertá-lo em troca de um favor: precisa que Django o ajude a encontrar três esclavagistas. O escravo rapidamente se torna um útil assistente de Schultz que, após descobrir que Django é casado, o ajuda na missão de resgatar Broomhilda, na posse do cruel e poderoso Calvin Candie (Leonardo Dicaprio).
Quem já viu alguns filmes de Quentin Tarantino irá reconhecer algumas das peculiaridades que formam o seu estilo – a mistura de influências e homenagens, os diálogos geniais, a violência, certas técnicas visuais. Mais: os que viram «Sacanas Sem Lei» poderão experimentar uma ocasional sensação de dejá vu. Porque, por um lado, «Django Unchained» segue a mesma fórmula que «Sacanas» – uma personagem ou grupo de personagens pertencentes a uma minoria (negros e judeus) lutam contra o sistema que os oprime (escravatura e nazismo). E porque, por outro, Tarantino também se dedica aqui à mesma reconstrução da história que experimentou em «Sacanas Sem Lei». Por fim, note-se também que Christoph Waltz interpreta o Dr. King Schultz de forma muito semelhante ao seu Hans Landa de «Sacanas». Mas tudo isto não é acidental, pois Tarantino já revelou que «Sacanas Sem Lei», «Django Unchained» e o seu próximo filme poderão ser parte de uma trilogia.
Tarantino mistura humor e ultra violência com um tema muito sério: a escravatura e racismo dos EUA dos anos 1800.
Quanto ao humor, Tarantino executa-o com a habitual mestria, através de diálogos hilariantes e cenas que não avançam o enredo mas que são uma delícia de ver. Samuel L. Jackson, quase irreconhecível, também confere muitos momentos cómicos como Stephen, um dos escravos de Calvin Candie.
Tarantino gosta de violência – isto não é novidade. Mas aqui a carnificina é exagerada e torna-se, por vezes, banal, especialmente quando se tem em conta o contexto histórico do filme. «Django» não é um puro exercício em estilo como «Kill Bill»; é um filme que trata um período em que os negros eram considerados inferiores, e por isso merecia mais cuidado na abordagem. Mas não é isso que se passa aqui: os assassínios violentos começam, lá para o final do filme, a parecer gratuitos: a carnificina existe apenas para chocar e entreter. Esta violência, aliada à mistura de história com ficção, atribui ao filme um tom ligeiramente caricatural, que não liga muito bem com o tema da escravatura.
Ainda assim, é de louvar o facto de Tarantino ter feito um filme sobre este flagelo, que pouco tem sido abordado. Para além disto, temos finalmente uma personagem negra que sobrevive mais do que 30 minutos, não é um estereótipo e, sobretudo, é a protagonista.
Tarantino não consegue sacrificar cenas. Por isso, «Django Unchained» é um filme enorme (com 2h45), que se começa a arrastar na segunda metade. «Django» não é, assim, um filme tão preciso e bem construído como «Pulp Fiction» ou «Jackie Brown». Faz falta o Tarantino daqueles tempos, que se controlava melhor e que era mais moderado na utilização da violência, que tinha um propósito.
No entanto, «Django» tem muito que louvar. Para além do diálogo e do humor muito bem executados, as performances são fantásticas (Leonardo Dicaprio desempenha um dos seus melhores papéis dos últimos anos), o filme entretém imenso e dará, aos fãs de Tarantino, uma enorme satisfação, ao permitir-lhes entrar de novo no seu universo cinematográfico.
Não é o melhor filme de Quentin Tarantino, mas é melhor que a maioria.
O melhor: os diálogos, as técnicas visuais e as performances.
O pior: a violência gratuita.
| Sara Sousa |

