«Total Recall» (Desafio Total) por Carla Calheiros

(Fotos: Divulgação)

Quanto “Desafio Total” estreou em 1990, Arnold Schwarzenegger era o rei de Hollywood e o realizador Paul Verhoeven – antes de “Instinto Fatal” e do desastroso “Showgirls” – vivia sob o êxito da sua obra anterior, “Robocop”. Os dados estavam lançados para o sucesso, cimentado num argumento futurista, uma estrela do maior calibre possível, e em efeitos especiais bastante interessantes para a época. 
 
E a verdade é que Verhoeven não se privou de nada, desde uma senhora com três seios, a uma raça de mutantes habitantes de Marte, o realizador criou um ambiente único e memorável, e embora não fosse uma das obras primas da sétima arte, o filme acabou por ser um enorme sucesso de bilheteira e conquistar o seu lugar na memória cinematográfica. Por isso, e numa época em que quase tudo o que sai de Hollywood é uma sequela, ou um “remake” de algo já feito, não é de estranhar que “Desafio Total” tenho sido levado novamente aos ecrãs. 
 
A base do filme acaba por ser exatamente a mesma. Quaid é um suposto simples assalariado do futuro, com uma vida rotineira. Disposto a criar novas e mais excitantes memórias acaba por ir a uma empresa chamada Recall, que tem por missão implantar novas e excitante memórias, e Quaid acaba por ser apanhado numa nova realidade sobre quem realmente é. 
 
Desta vez, o leme da obra foi entregue a Len Wiseman, cujos predicados na realização incluem os dois primeiros filmes da saga “Underworld” e o quarto capítulo da saga “Die Hard”. Embora toda a base da história seja semelhante ao primeiro filme, a verdade é que Wiseman segue um caminho totalmente diferente de Verhoeven. O primeiro ponto divergente é o facto de nesta versão não chegarmos nem perto do planeta vermelho, e termos a divisão feita entre dois territórios no planeta terra. Por outro lado, Wiseman “enrijeceu” o filme dando-lhe um tom de demasiada seriedade, ou seja, não criando qualquer escape cómico da ação constante que decorre no ecrã. Tudo isto partindo ainda com a desvantagem de que várias gerações já conhecem perfeitamente o argumento, e que os vários “twist” do filme já são esperados. 
 
Por isso, e em termos comparativos, “Desafio Total” (versão 2012) perde face ao seu antecessor de 1990, especialmente em termos de carisma e na forma como o original teimava por não se levar muito a sério. E no geral, o resultado final deste “remake” acaba por ser dúbio. Temos um filme de ação bem feito, com sequências bem coreografadas, com efeitos muito bons, mas que no entanto está recheado de interpretações soturnas e personagens completamente sombrias sem qualquer desenvolvimento para que se criem quais laços.
 
Mesmo assim, o trabalho dos atores acaba por não ser tão negativo assim. Colin Farrell não tem a “presença” de Schwarzenegger, mas não desilude como herói de ação. Ao seu lado está Jessica Biel que acaba por ser um elemento neutral no filme, uma presença bonita que não incomoda, mas que também nada tem de marcante em si. Curiosamente é nos vilões que o “Desafio Total” do século XXI mostra trunfos. No papel que anteriormente era de Sharon Stone, aparece Kate Beckinsale. A esposa do realizador acaba por ganhar mais tempo de antena, mas mesmo assim mostra ter alguma estrutura para o registo de má da fita, o que se revelou uma agradável surpresa. Ao seu lado aparece Bryan Cranston, ator “ressuscitado” pelo sucesso da série “Breaking Bad” e que mais uma vez não desilude.
 
Por isso, e tendo em conta que logo à partida “Desafio Total” perde pontos por se tratar de um “remake” e igualmente por ter um tom demasiado rígido, a verdade é que mesmo assim, acaba por ser um produto de ação com algum interesse. 
 
O Melhor: Bryan Cranston nasceu para fazer de mau
O Pior: A rigidez que Wiseman impõe ao filme não permite ao espectador esboçar um sorriso.
 
 
Carla Calheiros
 

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