
Sempre que há um filme sobre o fim dos tempos geralmente esperamos um enorme “blockbuster” recheado de efeitos especiais e onde há sempre alguém que resolve ser o herói do fim dos tempos, e onde há sempre lugar para a esperança. No entanto, Lars Von Trier resolveu terminar o mundo de outra forma em “Melancolia”, associando o fim dos tempos ao estado de espírito e a um malfadado planeta que acabaria com a vida na terra. Mesmo assim, Trier deu espaço aos seus personagens para experienciarem a vida de uma forma mais normal, para fazer escolhas e sobretudo para criar o conformismo face ao destino iminente.
Neste “4:44” Abel Ferrara acaba por ser de uma crueldade tremenda começando a história no último dia de vida da Terra, e centrando toda a sua narrativa num casal que se auto-confinou ao seu apartamento para os últimos momentos de vida. Aqui já não há esperança, nem forma de escapar. Cisco e Skye (interpretados Willem Dafoe e Shanyn Leigh) são um casal de artistas: ele ator, ela pintora. No último dia ambos adoptam posturas diferentes: ela refugia-se no trabalho, e ele na tentativa de se despedir dos seus entes mais queridos. No entanto, pese embora as trágicas circunstâncias, continuam a funcionar-se como um casal: amam-se, gritam, discutem, tem ciúmes e sobretudo são cúmplices… é duro!
Aliás, grande parte da força da célula do casal está nos atores, sobretudo em Dafoe, que consegue interpretar, geralmente de forma brilhante, personagens assolados por uma multiplicidade de sentimentos. Ao seu lado, aparece Shanyn Leigh, que se vai transfigurando durante o filme entre o forte e o frágil, mantendo igual brilhantismo.
Paralelamente a isto, Ferrara não deixa das algumas alfinetadas desde o início do filme, onde se explica que o motivo do cataclismo é a destruição da camada do ozono – e onde o discurso de Al Gore não poderia faltar. Por outro lado, critica ao afastamento das pessoas, nomeadamente à forma como as novas tecnologias entram em campo para substituir o contato pessoal. E depois há ainda a forma indiferente com que tratamos as pessoas que vemos todos os dias, expressa na cena em que Dafoe e Skye tentam ajudar o jovem entregador de comida, cujo nome nem sequer sabiam até aquele dia.
Apostando fortemente em manter tudo o mais minimalista possível, Abel Ferrara acaba por construir um retrato duro e cruel sobre o fim dos tempos, e sobre a impotência dos homens perante o trágico destino que lhes está traçado. Em última instância, e embora a espaços se revele tedioso, a verdade é que “4:44” não deixa de criar o seu espaço no nosso pensamento. O que farei um no último dia da Terra? Sinceramente… não sei.
O melhor: Os atores.
O pior: A dificuldade em criar laços com personagens condenadas, por mais bem interpretadas que sejam.
| Carla Calheiros |

