«Les Neiges du Kilimandjaro» (As Neves de Kilimanjaro) por Carla Calheiros

(Fotos: Divulgação)

É uma tendência da sociedade em que as coisas sejam cada vez mais a preto e branco, e que certo e errado sejam plenamente definidos, e de fácil compreensão. Na verdade, passamos cada vez mais tempo a olhar para nós e a lamentar as nossas injustiças, sem perder um segundo a tentar compreender os motivos dos outros. Cada vez mais os valores desaparecem. No entanto, o tema não é assim tão recente, e já Victor Hugo no século XIX escrevia sobre a capacidade da sociedade julgar sem se preocupar com todas as variáveis envolvidas. 
 
É baseado no poema “Les Pauvres Gens” do escritor francês que nasce este “As Neves do Kilimanjaro”. O realizador e argumentista Robert Guédiguian pegou no poema e tentou criar algo que remetesse à obra de Hugo. Assim nasce a história de Michel e Marie-Claire. Este casal de meia-idade, que lida com o facto de Michel ter perdido o emprego pelo estranho e cruel método de um sorteio. Com ele perdem o trabalho mais vinte. Perto da idade de reforma, e sem grandes perspetivas de arranjar novo emprego, Michel acaba por começar a apreciar os pequenos prazeres da vida, e assentes na estabilidade adquirida, e o casal continua a viver sem grandes problemas.
 
No entanto, ao completar mais um aniversário de casamento, acaba por ser presenteado pela família com algum dinheiro e com viagem de sonho à Tanzânia, e ao Monte Kilimanjaro. Aqui começam os problemas e acabam por ser assaltados em casa. O evento deixa marcas diferentes no casal, e nos cunhados também presentes. E se o primeiro instinto é de procurar justiça, as coisas acabam por não ser tão lineares quando se avalia o quadro por trás do evento. 
 
Contrariamente ao que o título possa fazer pensar não vamos ter nem sinal das montanhas tanzanianas. Disfarçado de um filme simples e direto, “As Neves do Kilimanjaro” é uma daquelas obras (cada vez mais raras) que tem o condão de nos fazer pensar e sobretudo avaliar o nosso papel na sociedade. Cientes de que em tempos eram preocupados com o próximo e que agora chegaram ao estatuto de “pequenos burgueses”, o casal vai procurar compensar o peso dos seus próprios atos. 
 
Um dos dados curiosos sobre o elenco é que tendem a trabalhar juntos nos filmes de Guédiguian, e esse entrosamento acaba por ser a base que sustenta o ritmo agradável de toda a fita. A comandar temos Jean-Pierre Darroussin (que este ano já passou pelas salas portuguesas com “Le Havre”) e Ariane Ascaride, como Michel e Marie-Claire, respetivamente. A solidez do seu trabalho acaba por transformar este filme numa experiência mais enternecedora do que dramática, e de desejar secretamente chegar à meia-idade com uma relação tão “saudável” como aquela.

Em última instância, “As Neves do Kilimanjaro” acabam igualmente por ter a sua vertente de conflito geracional não só entre pais e filhos, mas igualmente entre gerações diferentes de trabalhadores, entre aqueles que lutaram por melhores condições de trabalho, e os que hoje em dia lutam apenas pelo trabalho. Mais atual é impossível.

No final, as linhas que levam ao desenlace podem tender a algum facilitismo, mas a verdade é que como terapia motivacional, “As Neves do Kilimanjaro” funcionam em pleno, deixando claro que fazer o bem pode suplantar facilmente o fazer o que é socialmente correto.
 
O Melhor: A relação do casal.
 O Pior: nada a assinalar.
 
 
 Carla Calheiros
 

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