Porque não resulta este filme? Porque é uma montanha de talento submergida por um imenso mar de pretensiosismo  Cosmopolis não é um filme banal, será que isso chega? Tinha até o potencial para se tornar um filme demasiado parado, dado que a grande maioria da sua acção se desenvolve em conversas tidas no plano fechado de uma limusina. Mas também não. Não é esse o problema. Cosmopolis era um filme recheado de potencial, mas o que faz com que fique tão aquém do que prometia?

Por estranho que possa parecer, o problema não está na sua estrela principal. Retirado por David Cronenberg do jugo sufocante da saga “Twilight”Robert Pattinson aparece numa performance controlada e intensa como Neil Packer, um jovem bilionário de Wall Street habituado a ter tudo e que vê o seu mundo desmoronar à sua volta durante uma viagem de limusina através de Nova Iorque para ir cortar o cabelo. Visto por muitos cépticos como uma escolha invulgar para um filme do excêntrico realizador canadiano, Pattinson é, na verdade, o grande destaque positivo de todo o filme.

Estará então o problema na escolha de fechar a grande maioria da acção dentro de um carro? Não. David Cronenberg é um realizador muito talentoso, com um estilo livre e fluido que consegue tirar o maior partido de todas as possibilidades que estes planos fechados lhe permitem. Na verdade, concentrar tanta da narrativa dentro da limusina só vem trazer maior impacto ao pouco que se mostra da acção fora dela.

Então, porque não resulta este filme? Porque é uma montanha de talento submergida por um imenso mar de pretensiosismo. “Cosmopolis” conta com interpretações fortes de actores tão talentosos como Paul Giamatti, Juliette Binoche ou Samantha Morton, mas desperdiça-as em diálogos inanes e com uma impressão inflacionada da sua própria importância. Há um limite para a quantidade de vezes que se pode colocar duas personagens a conversar para si mesmas ignorando o que a outra lhe está a responder. Decerto a intenção era transmitir a alienação do cidadão moderno, mas é um truque tão excessivamente utilizado que se torna uma caricatura de si mesmo.

O mesmo se pode dizer da mensagem geral do filme. A limusina de Neil Packer atravessa Nova Iorque durante uma manifestação de um movimento semelhante ao “Occupy Wall Street” e muitos dos diálogos do filme prendem-se a reflexões sobre a decadência do capitalismo moderno. Numa adaptação do romance de DonDeLillo, David Cronenberg, que escreveu o argumento, perde-se em críticas tão banais à podridão do sistema financeiro que, no fim, se torna difícil perceber qual dos lados da barricada se está a satirizar.

Talvez a intenção seja transmitir uma mensagem de ambiguidade. Ou talvez isso seja o que nós dizemos a nós mesmos quando artistas talentosos se deixam apaixonar pelo seu próprio umbigo.

Pontuação Geral
Pedro Quedas
cosmopolis-por-pedro-quedasDavid Cronenberg, que escreveu o argumento, perde-se em críticas tão banais à podridão do sistema financeiro que, no fim, se torna difícil perceber qual dos lados da barricada se está a satirizar.