Em 2004, Roland Emmerich no seu “The Day After Tomorrow” colocava centenas de norte-americanos a tentar fugir para o México como forma de subsistência a uma “idade do gelo” que atingira os EUA, devido às mudanças climáticas. Nessa realidade alternativa, a Guatemala enviava apoio económico aos EUA e os mexicanos reforçavam as fronteiras, devido ao enorme volume de emigrantes vindos do norte.

Ainda que com a subtileza de um martelo pneumático, Emmerich tocava num ponto muito curioso: a inversão de papéis em termos politicos e sociais, dando um tom irónico (no mínimo) ao mundo em que vivemos. Três anos depois, é Neill Blomkamp – um estreante nestas andanças, conduzido por Peter “Lord of The Rings” Jackson – a criar uma inversão de papéis gigantesca, colocando sul africanos a exigir que os “aliens”, que chegaram ilegalmente a Joanesburgo, sejam colocados num sistema de “apartheid”. E é a isso que assistimos em “District 9”, uma provocação sensacional, que pega num milhão de extraterrestres, coloca-os em verdadeiras “slums” – que mais fazem lembrar as piores partes das favelas de “Cidade de Deus” ou de “Slumddog Millionaire” – até existirem tantos problemas que só uma “Tropa de Elite” da geração “Transformers” conseguiria resolver.

O resultado é um filme genial de acção, tecnicamente perfeito, dando ainda no final um toque tão sofisticado emocionalmente, que desde que “ET” surgiu nas telas em 1982 não se via no cinema. Pelo meio, ainda passamos por uma mutação que tem muito de “The Fly”.

Mas vamos por partes. Em “District 9”, uma nave alien paira sobre Joanesburgo. Nela são encontrados perto de um milhão de “gafanhotos”, que são “naturalmente” colocados sobre vigilância numa espécie de campo de refugiados, que rapidamente se transforma em gueto. Sem as mínimas condições, o espaço transforma-se numa gigantesca favela, onde o crime avança e toda a população em redor teme o espaço. Agora há que acabar com este enorme problema social, e para isso basta só convencer os “gafanhotos” a assinarem um papel e levá-los para um lugar a 200 km da capital. A questão é que, como é óbvio, há muitos interesses por trás desta benesse, e no fundo os aliens são obrigados a saírem do local, mesmo que não queiram.

Blomkamp, nunca perdendo o sentido de entretenimento e assumindo uma abordagem entre o documentário e o filme de acção nos limites, dá assim ao espectador o verdadeiro rosto da humanidade no seu pior, e nem se pode dizer que estamos perante algo exagerado ou caricatural, pois “isto” já aconteceu.

No fundo, “Distric 9” é uma raridade nos tempos que correm: para além de superar as expectativas com a sua agenda politico-social, entretém-nos com sumptuosas cenas de ação e deixa-nos com um misto de sensações no final que dão que pensar.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
district-9-por-jorge-pereiraAlém de superar as expectativas com a sua agenda politico-social, entretém-nos com sumptuosas cenas de ação