(contém spoilers)
É já um pequeno fenómeno – apesar de não ter sido dada a devida atenção pelo festival. Mas depois dos ecos de Veneza, adivinha-se a loucura em Toronto. Aliás, o filme nem sequer figura ainda no IMDB, pois terá sido alvo de um tremento secretismo. Já iremos a ele. Para já, dissipa qualquer dúvida (para quem as tinha) de que se trata de uma grande artista, excelente realizadora.
Sarah programa um documentário sobre a sua vida. Mas que foi preparado em total segredo. E é isso que deveremos respeitar. No fundo, um filme sobre as histórias que se contam dentro da família. O ‘spoiler’ só existe porque a história passsará a ser conhecida. E logo ela que tem uma família bastante documentada, ambos os pais foram atores (Diane e Michael Polley) e sempre recolheram muito material em home movies. E é a forma determinada como Polley submete o pai, os quatro irmãos, amigos de família a várias horas de depoimentos em câmara. “Isto não vai ser uma entrevista. É um interrogatório”, avisa a filha no início. “Tu és uma realizadora muito exigente”, queixar-se-á o pai, a certo ponto, quando descreve a forma como o obrigou a mergulhar de fato completo numa piscina de água gelada. “É só para fazer uma montagem, pai”, ouve-se fora da câmara, num filme já com bastantes anos. Meticulosa, rigorosa, serve-nos um conjunto de imagens que é um sonho. Eleva o género a um patamar diferente. São as imagens de arquivo da família, a memória montada ao ritmo do texto dela que o pai lê em nome próprio, os excertos que a própria encenou. Pelo meio, ficamos a conhecer os diferentes momentos da mãe desta realizadora canadiana, a sua morte por um cancro fulminante, as constantes ausências, o pai pacato, os irmãos.
Seduzidos pelo estilo, surpreendidos pelos eventos da sua vida – Sarah apenas nasceu porque a mãe não foi capaz de consumar um aborto por receio de anomalias -, seguimos até para o que aparenta ser um ‘fait divers’: (SPOILER) a brincadeira de longa data de que Sarah ou mesmo um irmão poderiam não ser do mesmo pai. Com as suspeitas a virarem-se para os atores com quem Diane convivera durante uma temporada numa peça de teatro. Em camara, percebe-se até alguma hesitação de um com fortes semelhanças do irmão, mas é ao entrevistar um deles que ele acaba por lhe relatar que acha que é pai dela. Em câmara, percebe-se a surpresa dela. Depois é o teste de DNA que confirma ser positivo em 99,97%. Depois foi o segredo até um jornalista canadiano ter descoberto um rumor. Foi o pânico, como ela explica no «post» que reproduzimos. Contudo, o filme em nada se esgota no ‘spoiler’. Pois é preciamente na determinação dos objetivos, no rigor meticuloso daquela montagem de grande classe que ficamos a conhecer e a desejar seguir esta promissor arealizadora.
Aqui fica o link para o ‘post’ que a própria lançou a propósito da estreia mundial do filme:
http://blog.nfb.ca/2012/08/29/stories-we-tell-a-post-by-sarah-polley/
Stories We Tell
De Sarah Polley

