Liam Neeson, Gabriel Byrne e Florence Pugh já deram o ar dos seus talentos à ala de encerramento do Festival de San Sebastián que, por hábito, apela para uma produção de CEP europeu para fechar a sua maratona anual, o que às vezes se dá com o envolvimento de realizadores de prestígio autoral (Neil Jordan e Fernando Trueba, por exemplo), mas sempre há lugar para estrelas do Velho Mundo. Em 2025, a tarefa ficou com Leslie Manville, diva do teatro britânico e parceira de medalhões como Mike Leigh (em Another Year). A atriz é a alma do thriller Winter of the Crow, uma produção meio polaca e meio inglesa. Há ainda uma presença luxemburguesa na sua equação financeira. A escolha foi bem-vinda: a acolhida respeitosa do filme no TIFF ampliou o apetite basco pelas habilidades da cineasta Kasia Adamik, que assina a realização. A mãe da cineasta, Agnieszka Holland, esteve no certame da Concha de Ouro com (o belíssimo) Franz. Lesley é submetida a tarefas de que só agentes do MI-5 dão conta, numa trama decalcada da prosa da vencedora do Nobel de 2021, Olga Tokarczuk, no conto Professor Andrews Goes to Warsaw. Corre-se, foge-se, esconde-se e mente-se aos montes na longa-metragem que atesta a eficácia de Kasia com as cartilhas do suspense. A sua carreira aperfeiçoou-se na dedicação a séries, com espaço para filmes como Amok, de 2017, e Rastros (o vencedor do extinto troféu Alfred Bauer na Berlinale, há oito anos), que rodou com Agnieszka.

A narrativa que a traz para o fecho de Donostia passa-se em Varsóvia, em 13 de dezembro de 1981. A lei marcial é imposta e, da noite para o dia, o país fica paralisado, justamente quando a professora de Psiquiatria, Dra. Joan Andrews (Leslie, numa impecável atuação), chega como docente convidada à universidade. Os táxis foram substituídos por tanques; os moradores são tratados como se fossem criminosos. Enquanto o caos toma conta da cidade, Joan pega a sua câmara Polaroid e regista o que não é permitido por aquele estado, incluindo um assassinato brutal cometido pela polícia secreta. Em perigo de vida, sem passaporte ou mala num momento em que a Polónia se fecha para o mundo, ela torna-se uma fugitiva perseguida. Seria praxe render-se. Era isso o esperado de uma intelectual sem treino de sobrevivência. Só que Joan não tem índole bovina. O sonho com um corvo leva-a a alçar voos, nos moldes da ave, que costuma ser associada ao mau agouro.

A montagem nervosa de Andonis Trattos impele a plateia entre as margens da poltrona, à medida que um guião nos moldes dos bons títulos de espionagem dos anos 1970 e 90 (como The Three Days of the Condor) se descortina em cena. A fotografia de Tomasz Naumiuk abusa dos contrastes e das sombras, num tônus bruxuleante que prejudica a dinâmica da ação. Cabe ao talento de Leslie galvanizar a ousadia que Kasia almeja imprimir.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
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