Entre as múltiplas sequências em que “A Complete Unknown” faz transbordar as emoções da plateia, as cenas do primeiro beijo entre o jovem Bob Dylan e a cantora e compositora Joan Baez são as que mais carregam o ethos de Hollywood em relação ao lirismo na reinvenção do real. O desempenho de Monica Barbaro e de Timothée Chalamet, num enlace selvagem, não apenas dá um corte brusco na carga política de um painel histórico, demarcado de 1961 a 1965, como faz ecoar o preceito ultrarromântico que dá um traço autoral à obra pluralíssima do seu realizador, James Mangold. Escolhido para uma projeção fora de competição na 75ª Berlinale (agendada de 13 a 23 de fevereiro), na esteira da sua campanha mediática para conquistar pelo menos um dos oito Oscars a que concorre, a longa-metragem orçada em cerca de US$ 65 milhões marca um regresso do cineasta aos biopics musicais. De lá ele extraiu um dos seus maiores sucessos “Walk The Line” (2005), sobre June Carter (1929-2003) e Johnny Cash (1932-2003). Retorna a esse registo com direito a uma participação de Cash (interpretada pelo seu habitual parceiro Boyd Holbrook), apoiado num período histórico recorrente nas suas tramas: os anos 1960. Foi até lá em “Girl, Interrupted” (1999), “Ford vs. Ferrari” (2019) e “Indiana Jones and the Dial of Destiny” (2023). Retorna dessa vez para entender a génese de um bardo coroado com o prémio Nobel (em 2016) pelos versos dos hits “Blowin’ in the Wind” e “The Times They Are a-Changin’”, ambos executados na sua narrativa.
“Essa é uma época transformadora para a América e para o mundo, mas neste caso, os factos da vida de Dylan é que dão o rumo para revisitar aquele momento”, disse Mangold ao C7nema, numa entrevista via Zoom promovida ao largo da competição pelos Globos de Ouro, da qual o elenco principal também participou.
Inclua Barbaro, que se destacou em trabalhos recentes ao lado de ícones da ação, como Tom Cruise (“Top Gun: Maverick”) e Arnold Schwarzenegger (a série “Fubar”, da Netflix). Ela agora vê a sua carreira alcançar um novo status no papel de Joan Baez, quando a ativista iniciou o seu flirt entre a música e a reflexão social. É a partir do engajamento dela que o trânsito de Dylan pela cena folk adquire contornos de combatividade.
“Hoje ouço música de outra forma e entendo, a partir daquelas vidas, que instrumentos são extensões de nossos corpos”, diz Barbaro, que concorre à estatueta de Melhor Interpretação Secundária da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. “Mergulhei em referências documentais na minha pesquisa para entender como Joan foi construindo uma expressão própria numa época em que a música forjava comunidades”.
Indicado ainda aos Oscars de Melhor Filme, Realização, Roteiro Adaptado (do livro “Dylan Goes Electric!”, de Elijah Wald), Guarda-Roupa e Som, “A Complete Unknown” tem o seu maior potencial de vitória na categoria Melhor Ator, vetorizado por uma esplendorosa atuação de Chalamet. Coube a ele o papel de Robert Allen Zimmerman (o nome real de Dylan) aos 19 anos. É com essa idade que o letrista e intérprete, chegado do Minnesota, chega ao West Village, em Nova Iorque, com o seu violão, um talento revolucionário e de devoção aos grandes nomes do folk.
“Não diria que Dylan é um herói, mas é alguém que confia nos seus instintos”, disse Chalamet ao C7nema. “O filme retrata a construção da poética de um artista que mapeou o que se passa na sociedade ali, nos anos 1960, e hoje, pois as suas letras ainda são relevantes”.
O argumento escrito por Jay Cocks e Mangold se inicia com a chegada de Dylan a NY, na visita que faz ao convalescente músico Woody Guthrie (vivido por Scoot McNairy), no seu resguardo hospitalar contra uma doença degenerativa. Ali, ao expor a sua admiração por aquele pardal do cancioneiro americano, o jovem trava amizade com Pete Seeger (1919-2014), personagem que põe Edward Norton de volta à caça ao prémio de Melhor Interpretação Secundária (que perseguiu há dez anos com “Birdman”). Na sua paixão pelos poderes analgésicos da canção, Seeger será uma espécie de mentor para Dylan.
“Não posso avaliar o Bob Dylan real, mas encontrei melancolia nele. O filme levou-me a conhecer outras canções do seu repertório”, disse Chalamet que aprendeu (e executou) cerca de 40 composições da sua personagem, além de tocar gaita e guitarra, durante as filmagens, de março a junho do ano passado, em Nova Jersey. “Mangold trouxe-me muita confiança”.

