Ano após ano, a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo apura os votos populares dos filmes da seção Novos Diretores (dedicada a realizadores que estão na primeira ou na segunda longa metragem) e encaminha os mais bem cotados para concorrer ao Troféu Bandeira Paulista (láurea criada pela artista plástica Tomie Ohtake), que tem na competição de 2024 o vencedor do prémio Cristal de Annecy: “Memoir of a Snail”.
O êxito da produção australiana no evento brasileiro coincide com a consagração internacional do seu realizador, Adam Elliot, que tem desfilado pelo planetaa defender a dimensão pop das narrativas em stop-motion (à la “Coraline” ou “Chicken Run”. A passagem dele pelo Festival de San Sebastián, em setembro, quando conversou com o C7nema, foi marcada pela consagração do público basco a uma animação nas raias do melodrama.
Até dá para rir no meio ao calvário enfrentado pela protagonista, Grace Pudel numa trama que discute alienação parental, fundamentalismo, homofobia e luto. O riso que brota vem da ironia típica de Elliot, vencedor do Oscar de Melhor Curta-metragem Animado de 2004 por “Harvie Krumpet”. Mais conhecido por “Mary e Max – Uma Amizade Diferente” (2009), o animador de 52 anos regressa agora aos holofotes narrando as penúrias de uma jovem órfã, colecionadora de moluscos, separada do convívio do seu amado irmão gémeo. O seu contato com uma abilolada senhora, Pinky, fã de charutos cubanos, vai atenuar as angústias.
Na conversa a seguir, Elliot conta ao C7nema sobre a indústria animada da Austrália.

De que maneira o seu país se reposiciona na indústria audiovisual ao investir em animações de cunho autoral?
Na Austrália, o meu trabalho esbarra com certa indiferença por ser considerado triste para o gosto do público. Levei cerca de oito anos para que “Memórias de um Caracol” (é esse o título de “Memoir of a Snail” na Mostra) fosse concluído e só tive essa chance por ter apoio público. Falar de cura gay, masturbação e suicídio afasta as pessoas. Fora isso, ainda há a perceção de que as animações devem ser para miúdos. Faço filmes para adultos.
Como funciona a lógica tragicómica do seu cinema?
Acredito no balanço entre os extremos; sem trevas, a luz perde o significado. Os argumentos que escrevo balanceiam dor e humor de modo a convidar a plateia a pensar. Posso arrastar a minha personagem principal pelo lodo do infortúnio, mas darei uma viragem. O alívio é algo bem-vindo no grande ecrã..
De que forma a metáfora do caracol ajuda a desbravar a psique introspetiva de Grace?
Quando olhas para uma joaninha, a sensação que vem daquele corpo é a fofura. A anatomia dela é bela, graciosa. Caracóis, não. Eles deixam um rastro de limo quando se movem, retraem as antenas quando são tocados e arrastam uma casa. Essa singularidade é perfeita para uma pessoa retraída, fechada em si. Sou atraído pela estranheza. Cresci num território onde havia camarão por todo lado. Já viu algum animal mais peculiar do que esse? Sou animador. Os animadores formam uma classe ensimesmada, isolada. Os nossos filmes falam por nós.

