‘Mulheres Radicais’: Filme de pesquisa, avesso a fórmulas

(Fotos: Divulgação)

Depois de “Le Mystère Picasso” (1956), de Henri-Georges Clouzot (1907-1977), o maior desafio de abrir uma conversação entre o cinema e as artes plásticas passou a estar no ensejo de se emular o processo criativo de quem faz pintura, escultura, gravura, performance (etecétera) na forma narrativa fílmica. O documentário, como formato cinematográfico, encontra-se tentado a “roubar” de quem documenta a expressão poética, como se vê na luz de “Going Where I’ve Never Been: The Photography of Diane Arbus”, de John Musilli, ou na montagem do “Di Cavalcanti”, de Glauber Rocha (laureado com o Prêmio do Júri das Curtas de Cannes, em 1977). Na série “Tela Sobre Tinta”, no episódio dedicado à escultora Celeida Tostes, a documentarista Malu De Martino reproduz, na linguagem, a notória “brandura indômita” de sua personagem. Há ainda algo de amalgama na maneira como Antonio Carlos da Fontoura conjuga seu olhar com as cores de Heitor dos Prazeres na cultuada curta-metragem batizada com o nome do pintor, lançada em 1965, e revivida em recente exposição do Centro Cultural Banco do Brasil. Até na ficção, quando Martin Scorsese homenageia a cena factory dos artistas Nova York, em “Life Lessons” (1989), com Nick Nolte imerso em aquarelas, o diretor de “Taxi Driver” (Palma de Ouro de 1976) leva aquele dinamismo do núcleo criativo ao qual se reporta para a dinâmica da fotografia.

O enigma reside aí: deve-se ir pela mimese, pela interseção, pela observação, pela escuta? Um caminho vivo como resposta vem de Isabel Nascimento Silva e de Isabel De Luca em seu novo filme: “Mulheres Radicais”: análises combinatórias. Ao compor um puzzle de gestos, ao aproximar uma esquadra de artistas de diferentes idades, origens, lares e inquietudes, a diretora conhecida por “De Você Fiz Meu Samba” (2022) explode uma bolha da técnica, da expressão e da “representação”. Grifes como Cecilia Vicuña, Claudia Andujar, Liliana Porter, María Evelia Marmolejo, Graciela Carnevale, Isabel Castro e mais uma variada horda de cabeças postulantes da arte exercitam o processo da curiosidade. Não há entrevista, há conversa. Há perguntas cruzadas. Mas o que mais salta aos olhos é a “moldura”, ou seja, a opção que a cineasta toma ao enquadrar cada par de convidadas num mesmo eixo, no qual se valoriza figuras e fundo, numa relação friccional da palavra com uma sequência-plano austera, aparentemente inerte, mas que se agita internamente, dado prosseguimento para movimentos de câmera leves, em cortes macios. Adriana Brunetto-Lipman e Janice D’Avila se combinam na direção de fotografia, optando por uma linha apolínea na troca de ideias, que respeita a física das cores de cada quadro, instalação ou performance por elas documentado.   

Há uma pista dada pela multiartista visual e teórica Fayga Ostrower (1920-2001), ao longo de suas aulas, que é fundamental para entender a arquitetura elegante proposta por Isabel Nascimento Silva em “Mulheres Radicais”, lançado mundialmente no Festival do Rio, no domingo. Fayga dizia: “Criar é tão difícil ou tão fácil como viver, e é do mesmo modo necessário. A própria aceitação de limites – das delimitações que existem em todos os fenômenos, em nós e na matéria a ser configurada por nós – é o que nos propõe o real sentido da liberdade no ato de criar”.

Ao longo de 70 minutos de cartografia, com imagens de arquivo riquíssimas, a realizadora assume (ou seria melhor “desafia”) como “limite” os sintomas de opressão às potências femininas (o achatamento da visibilidade, a inequidade, os garrotes do matrimônio, imposições maternas) a fim de (re)fazer um percurso histórico (e estético) das artes plásticas na América Latina. A confortável estrutura do cinema talking head na não ficção, com o dispositivo da “coleta de depoimentos”, aqui é substituída pela dinâmica do encontro, que emula a práxis do universo que mapeia ao apostar numa justaposição. Ideias estão justapostas, em fricções de gerações e de vivências, sempre com a labareda do feminino a gerar incêndios, que ardem com mais calor em especial nas intervenções de Anna Bella Geiger e Lenora de Barros. Ali a fumaça sobe. Ali e noutros pontos nevrálgicos onde o Brasil transborda no discurso.

O eixo do guião composto por Isabel De Luca e Tatiana Bacal é um evento. Entre 2017 e 2018, uma exposição histórica reuniu 120 artistas plásticas latino-americanas que produziram trabalhos seminais entre os anos 1960 e 1980, hoje resgatados como centelhas para pautas identitárias. A tal mostra, chamada Mulheres Radicais, revelou, em sua maioria, nomes que passaram a ser reconhecidos e celebrados. Onze artistas conectadas a essa retrospectiva aceitaram participar de encontros inéditos promovidos pelo filme, sob a direção de Isabel Nascimento Silva (tendo a já citada De Luca assinando consigo o posto de “um filme de”, numa assinatura criativa em duo). Essas junções se deram em Nova York e São Paulo, enquanto a exposição — fruto de pesquisa que durou quase uma década — abria um novo capítulo na história da arte do século XX.

Em “De Você Fiz Meu Samba” e “Primavera das Mulheres” (2018), Nascimento Silva já dava sinais de um código de autoralidade ao apostar num dispositivo de trança, mesclando o falar de suas personagens e situações históricas numa edição que não se limita a lógicas cartesianas, demonstrando uma dimensão de “filme-processo”, de obra de pesquisa. Esse veio pelo qual ela gravita tira o verbo do cansaço ao qual ele é submetido em fórmulas desgastadas. O que ela faz em “Mulheres Radicais” lembra o caminho percorrido por Wang Bing no recente “Man in Black”, sobre o compositor Wang Xilin.

Por trás das falas de suas radicais livres pincela-se uma América de veias abertas, rasgadas pelo sexismo. Tem sessão da longa de Isabel De Luca e de Isabel Nascimento Silva nesta quarta-feira, às 13h45, no Estação NET Gávea. No feriado, quinta (dia 12), o filme será projetado às 20h45 no Estação NET Rio 3.

Cotação: 3,5

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