Vagamente baseada no caso Spiniak, um caso real de pedofilia que abalou o Chile há duas décadas (que faz lembrar o caso Casa Pia em Portugal), “Blanquita”, terceiro filme de Fernando Guzzoni,  é um thriller dramático atmosférico que se mostra constantemente desprovido de intenções sensacionalistas, preferindo caminhar pelas penumbras do processo de acusação, sem cair no miserabilismo social ou exploração traumática.

No centro de tudo está  Blanca (Laura López), uma rapariga de 18 anos que põe em xeque uma rede de abusadores de crianças onde se encontram figuras públicas e políticos. Ao lado dela nessa acusação está o padre Manuel (Alejandro Goic), um homem ríspido mas com princípios que administra um orfanato e que frequentemente vê as suas queixas de abusos aos jovens esbarrarem nas deficiências legislativas e burocráticas do estado chileno. Mas desta vez é diferente, ou pelo menos aparenta ser, pois Blanquita parece preencher todas as demandas de “seriedade”, “condições psicológicas” e até “secura emocional” para os procuradores da justiça do caso avançarem para os tribunais. O problema é que no meio de muitas verdades podem existir algumas mentiras que no meio de acusados tão poderosos têm tudo para arruinar o caso.

Com a ajuda de uma direção de fotografia (de Benjamín Echazarreta, de “Casa de Antiguidades” e “Uma Mulher Fantástica”) sempre a fugir de altos contrastes, a preferir o uso artificial de luzes e cores que dão um tom de permanente mau presságio, e fazem as personagens confundirem-se com os espaços, Guzzoni coloca em Laura López e Alejandro Goic o peso de personagens cercadas por diversas barreiras e obstáculos, da esfera política à religiosa, passando pela pessoal, sempre com a opinião pública a servir de centelha para o fazer justiça ou enfiar a cabeça na areia. 

Guzzoni, realizador de “Carne De Perro” e “Jesus”, parece assim estar mais inclinado para, tal como Andreas Fontana no seu brilhante “Azor”, fazer um jogo cinematográfico de iluminação das sombras, fugindo de qualquer optimismo e eventual resolução. Mas se no filme do suíço, passado na Argentina, o foco eram as ligações obscuras da banca helvética no país sul-americano em plena ditadura, no caso do chileno temos os meandros políticos e das forças religiosas no meio de um caso de violação, pornografia infantil e abuso generalizado, tudo já no período pós Pinochet, provando que muitos dos vícios do poder transitaram para a democracia, qual vírus do privilégio que se recusa a sucumbir.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
blanquita-nas-sombras-da-pedofilia-e-do-poderThriller dramático atmosférico que se mostra constantemente desprovido de intenções sensacionalistas, preferindo caminhar pelas penumbras do processo de acusação de um caso de violação, pornografia infantil e abuso generalizado