Já com várias curtas-metragens e episódios de séries no currículo, o eslovaco Michal Blaško entra pelo universo dos dilemas morais na sua longa-metragem de estreia, “Victim”, um objeto político que filma de câmara na mão (muitas vezes planos longos e estáticos), que tanto deve à Nova Vaga do Cinema Romeno, como a muito do cinema iraniano atual, como o de Farhadi, na desconstrução psicológica de ações individuais que ganham proporções coletivas.

Na verdade, “Victim” e “A Hero” podiam mesmo ser parentes, embora o iraniano evoque a ascensão e queda de uma personagem sobrevalorizada após um suposto ato heróico, e esta produção Checa-Eslovaca-Alemã evite ao máximo que se saia desse mesmo estatuto de “herói” (que, curiosamente, é “vítima”).

No filme seguimos Irina (Vita Smachelyuk), uma imigrante ucraniana que busca o visto de permanência na Chéquia. O nosso primeiro contacto com ela é quando desesperadamente procura regressar a casa após descobrir que Igor (Gleb Kuchuk), o seu filho adolescente está hospitalizado após ter sido agredido por três jovens, que dizem serem ciganos (roma). Rapidamente o incidente passa do campo pessoal para o coletivo, ganhando a atenção dos Media e das autoridades autárquicas, que se comprometem em resolver este caso de aparente xenofobia. Por isso mesmo, quando uma marcha é organizada em honra da vítima, já é tarde demais para mãe e filho contarem o que realmente aconteceu, pois isso pode pôr em causa a sua presença (legalização) no país.

A “vítima” do título tem mais que uma interpretação, “colocação” neste objeto cinematográfico que se move essencialmente pela tensão psicológica de uma mentira que ganha proporções inesperadas. E esse termo pode-se referir ao jovem, alegadamente espancado; à comunidade roma, falsamente acusada: ao agente da polícia que investiga o caso, e não tem acesso à verdade; ou até mãe e filho pelo aproveitamento mediático e político que o caso atrai.

O certo é que “Victim” consegue mover-se entre géneros de forma orgânica, do drama ao thriller, do nível pessoal ao universal, sempre com uma enorme noção de conflito de classes e da presença de um racismo e xenofobia sistémicos no próprio estado, tudo numa Europa em constante transição geopolítica.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
victim-a-verdade-da-mentiraUm objeto que tanto deve à Nova Vaga do Cinema Romeno como a muito do cinema iraniano atual, na desconstrução psicológica de ações individuais que ganham proporções coletivas.