Difícil categorizar ou entender na plenitude o que é real ou ficção em “Vera”, filme da dupla Tizza Covi e Rainer Frimmel que que teve sua estreia mundial na seção Orizzonti do 79º Festival Internacional de Cinema de Veneza.

Vera”, que certamente está ligado ao facto da nossa protagonista se chamar Vera Gemma, mas também reflete uma eterna  procura da verdade (Vera em italiano é verdade) por parte da mesma, dá-nos muitas vezes a sensação de documentário observacional extravagante, mas a sua forma e construção narrativa A-B-C leva-nos exactamente até ao registo da ficção pura e narrativa clássica, partindo-se assim de factos reais que não são reconstituídos, mas ficcionalizados.

O tipo de beleza que aprecio é a Trans”, diz Vera Gemma, filha do ator italiano Giuliano Gemma, famoso internacionalmente por seus papéis em Spaghetti Westerns, quando logo nos primeiros momentos estabelece uma pequena conversa com uma jovem empregada de um bar que lhe serve uns shots. Nessa pequena frase, Vera estabelece logo a importância da aparência na sua vida, explicando (ou será desculpando?) o seu visual de “Barbie” que se recusa a envelhecer. É que pelo que Vera nos diz, e se repete numa outra conversa com um taxista, esta mulher é um claro exemplo dos que têm de viver com as enormes expectativas e o fardo do legado paterno. “O nosso pai destruiu qualquer hipótese de termos relações amorosas seguras”, diz a irmã de Vera a certo momento, mostrando que com a figura paternal associado a um exemplo perfeito de masculinidade e beleza, as duas filhas nunca encontrariam qualquer homem que pudesse rivalizar ou superá-lo.

É também nesses primeiros instantes da fita, sempre filmados num jeito verité, que entendemos que a aparência e o culto em torno dela estão profundamente enraizados na cultura familiar desta mulher, a qual claramente já passou por várias cirurgias corretivas, seja ao rosto, seja ao peito. “Na minha família era pior engordar que consumir drogas”, diz-nos, revelando na sua essência uma figura extremamente solitária, sempre envolvida numa paranoia constante de se deve acreditar nas pessoas que a rodeiam, em particular nos homens com quem mantém relações.

E nesses homens temos Gennaro (Gennaro Lillio), um realizador de cinema que a todo o custo tenta aproveitar dos contactos e dinheiro de Vera para realizar os seus próprios sonhos, e teremos mais à frente Daniel (Daniel de Palma), um “suburbano” que Vera conhece quando o seu motorista choca com a mota dele, fracturando o braço do seu filho pequeno. 

Habituada a encontrar na barricada do “proletariado” os seus grandes interesses amorosos, Vera é um poço de incertezas e dúvidas em relação a quase tudo, dando-nos um olhar sensível sobre uma mulher em permanente turbilhão emocional, tudo embrulhado numa espécie de falso reality show onde até Asia Argento “faz uma perninha”.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
vera-gemma-entre-a-realidade-e-a-ficcaoUm olhar sensível ficcional sobre uma mulher em permanente turbilhão emocional, tudo embrulhado numa espécie de falso reality show ou documentário observacional