Já com uma carreira digna de nota, entre o documentário e a ficção, onde se destacam “Histórias que Só Existem Quando Lembradas” e “Pendular”, a brasileira Julia Murat invadiu a competição principal do Festival de Locarno com o seu mais recente trabalho, “Regra 34”, um objeto provocante, não apenas por mostrar cenas sexuais que tocam nos extremos em torno da sua protagonista, Simone (Sol Miranda), mas porque embarca numa intensa discussão intelectual que, mais que dar respostas, levanta questões sobre temas como a violência doméstica, o balanço desequilibrado de poder na sociedade patriarcal capitalista, o consentimento, o feminismo interseccional, o racismo e até as novas plataformas de venda de “sexo” sobre a forma de tokens.

É um trabalho letrado, uma verdadeira dissertação mascarada de diálogos, que certamente motivará inúmeras discussões (até académicas) no futuro, conferindo ao filme o estatuto de experiência que prossegue bem além dos 100 minutos da sua duração. Contudo, essa excelência que encontramos no texto não encontra igual robustez no arranjo plástico e estético do filme, na sua mistura entre imagens do quotidiano, cenas sexuais que se desejam atraentes e imagens captadas no universo online Chaturbate, onde as janelas de chat funcionam como guião para a “estrela” em cena. O que a fotografia de Leo Bittencourt parece querer seguir é uma certa neutralidade e minimalismo, demonstrando uma espécie de pudor em “embelezar”, tornar demasiado sensual os desejos e atividades sexuais que ainda estão em discussão. Se como obra do audiovisual é uma escolha sábia e consentânea com o discurso, em termos cinemáticos fica longe de nos absorver sensorialmente e de nos dar a mesma tesão e dúvida (sobre essa mesma tesão) que invade os pensamentos de Simone.

De dia, Simone é uma feminista interseccional orgulhosa que estuda direito num Brasil que tem uma das maiores taxa de feminicídio do mundo (a cada duas horas, uma mulher morre), mas de noite -para ajudar a pagar as despesas, embora ela fale mais tarde em desejo – ela se transfigura e conduz um show porno-erótico capaz de excitar os seus inúmeros fãs online.

Em crescendo e paralelo, a discussões cada vez mais intensas sobre a condição de ser mulher e negra na sociedade atual, além de uma análise à própria violência do estado, os desejos sexuais de Simone tornam-se cada vez mais rebuscados e entram pelo terreno BDSM e da asfixia (autoinfligida, ou partilhada), ficando no ar uma espécie de paradoxo teórico-prático: o de uma mulher que luta contra as formas de submissão na sociedade patriarcal, mas que consente e avança para essa mesma submissão num jogo de excitação onde violência e prazer estão intimamente ligados. 

E nesse jogo, à medida que o filme avança, a própria Simone mostra cada vez mais dificuldade em colocar barreiras, como que estudando os seus próprios limites. Exemplo disso é quando, após uma cena intensa de sexo, o parceiro e amigo Coyote (Lucas Andrade) sugere a existência de uma palavra de segurança durante o ato sexual. Ela não responde, ainda absorvendo tudo o que aconteceu, entre a surpresa, o medo (de si mesma) e o mais completo fascínio sexual. Já a sua outra amiga, Lucia (Lorena Comparato), que fecha o triângulo bissexual em que os três se inserem, multiplica-se em avisos de como a Simone “sem limites” na concretização de fantasias pode prejudicar a Simone do ambiente académico, e, consequentemente, também “a causa” feminista. “Eu sou uma mulher adulta (…) O que devo fazer? Me Reprimir? (…) Sinto muito se o meu tesão não é suficientemente político para você” são as respostas de Simone que vão ecoar no espectador bem além do término do filme e que dão a “Regra 34” uma relevância contemporânea extrema, confrontando se empoderamento feminino e desejo sexual de alguma forma submisso podem andar de mãos dadas.

Construído essencialmente em vinhetas, que robustamente se alinham num filme compacto, e de – mesmo entrando pelo campo de cenas sexuais fortes – não alinhar na fetichização, “Regra 34” iniciou em Locarno uma jornada que certamente o transformará num objeto de culto que provocará discussões alargadas por onde quer que seja exibido.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
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