Não começa com “Era uma vez…”, mas a sequência inicial de “Girl Gang”, com uma câmara a percorrer Berlim com a torre televisiva de Alexanderplatz a marcar a paisagem, transmite imediatamente a ideia de uma fábula que se avizinha, de um conto de fadas que se vai revelar sombrio na exploração das redes sociais; das novas figuras que surgiram nelas, os influencers; e todo um aparelho artificial que tenta vender perante o público uma imagem de genuinidade.
“Girl Gang” é a nova incursão da alemã Susanne Regina Meures, que depois de entrar na cena techno underground de Teerão (Raving Theran) e analisar o patriarcado opressivo da Arábia Saudita (Saudi Runaway), segue agora, durante quatro anos, Leonie, uma jovem influencer de 14 anos, cujos seguidores atuam perante ela como groupies de qualquer celebridade do antigamente.
Qualquer conceito de genuinidade que tantas vezes estas figuras tentam transmitir perde-se num verdadeiro circo de análise de conteúdos, da criação de personagens (onde se incluem os pais), numa repetição contínua de atos, onde os mecanismos publicitários tentam esconder os seus tentáculos e expressar uma “verdade” para redes sociais. Leonie, ausente de uma verdadeira liberdade, já é assim mais uma personagem, que uma pessoa per si, entregue a milhares e milhares de seguidores que confiam nas marcas que com maior ou menor referência vão surgindo e gerando milhares de euros à publicação.
Do outro lado da barricada destas novas estrelas estão os fãs e Susanne Regina Meures foca-se particularmente numa, Melanie, uma solitária que vive longe de Berlim, vive a sua vida em função da influencer, gerindo um clube de fãs, e invejando a todos os momentos a sua vida. Há dois momentos chaves nesta relação de dependência e ilusão: aquele em que, numa noite de 2019, o Instagram viu milhares de contas desaparecerem, entre elas a de uma desesperada Melanie; e o momento em que a própria fanática está em carne e osso com Leonie num evento promocional glamoroso.
Essencialmente observacional, é na montagem que Susanne Regina Meures atinge com a sua lente toda a fragilidade de uma condição artificial, um novo mundo de ilusões criado apenas para celebrar o velho capitalismo em todo o seu esplendor.
É pois entre a estupefacção, fascínio e horror, onde não falta um olhar ao poder aditivo das redes sociais e da aprovação, que assistimos a tudo em “Girl Gang”, um mundo aparentemente perfeito, de contos de fadas, que esbarra na ausência de qualquer personalidade além do marketing instituído. E se frequentemente falamos dos “child actors” que descarrilaram na transição para a idade adulta, não hajam dúvidas que dentro de 10 ou mais anos vamos ver muitos trabalhos documentais sobre estas estrelas que se eclipsaram; ou perderam toda a sua juventude em troca de uma fama que não é mais que um instrumento de condicionamento humano.




















