Antes de entrar nos meandros de “Escrever com o Fogo”, nomeado ao Oscar de Melhor Documentário, convém fazer aqui um prólogo, tal como o documentário de Sushmit Ghosh e Rintu Thomas o faz nos seus primeiros minutos: para se entender a força do tema que abordamos, temos que ir muito além da questão patriarcal e entrar na sociedade de castas da Índia, onde os dalits, designados como “sudras”, são considerados pelos escritos bramânicos, sobretudo o Manava Darmaxastra, como “intocáveis“, “impuros” e os ”que vieram da poeira debaixo do pé de Brahma”.
Por isso mesmo, um documentário que segue o sucesso do Khabar Lahariya (livremente traduzida como “onda de notícias”), um jornal/agência de notícias na Índia, dirigida por mulheres Dalit, tem um interesse imediato, mesmo que escape à sua fundação e acompanhe em particular a transição para o digital. Armadas com smartphones e usado as novas plataformas de divulgação, como o Youtube, os jornalistas reportam vários problemas (violações, perigos laborais na mineração, falta de electricidade, cuidados de saúde, etc) de algumas das regiões mais difíceis do país, não faltando confrontações mais acesas com a população, a polícia e as instituições políticas e até religiosas, que muitas vezes se confundem.
Além dos desafios particulares destas jornalistas, e particularmente da repórter-chefe, Meera, a dupla de cineastas faz ainda algumas incursões às suas vidas familiares, mostrando detalhes do passado, mas sempre com o requinte e elegância de não tornar esse olhar mais acirrado ao íntimo como exploratório ou alvo de qualquer abordagem a fait-divers. A verdade é que o ser mulher e da casta dalit influenciou todos os momentos da vida destas jornalistas, filhas, mães e esposas, que para chegarem onde estão tiveram de quebrar uma série de tradições.
Em termos técnicos e formais, Sushmit Ghosh e Rintu Thomas fazem um jogo “by the book” entre filmagens (em conjunto com o diretor de fotografia), montagem e banda-sonora para revelar uma jornada heróica, sempre viajando entre a experiência pessoal destas mulheres e o coletivo (sociedade), falando dos desafios, obstáculos e conquistas de um jornal e da própria Índia, no caminho para a modernidade.



















