Existe um momento nesta cinebiografia realizada pela estreante em cinema Liesl Tommy (já com currículo em séries de TV) em que alguém carimba como santa a cantora Aretha Franklin em comparação à temperamental Billie Holiday. 

Tal comparação serve igualmente se olharmos para este “Respect” e “The United States Vs. Billie Holiday”. Se o primeiro mostra-se um filme seguro por entre todas as marcas das biografias convencionais do cinema com um olho na época dos prémios, a segunda pisava os mesmos terrenos mas com alguns laivos de irreverência formal e carnal que o colocam numa posição pronta a sofrer maior criticismo.

E quem viu, por exemplo, a série de TV “Genius” este ano, também consagrado a Aretha, percebe que o início de “Respect” não podia ser mais semelhante ao do projeto protagonizado por Cynthia Erivo. Começamos bem cedo na vida de Aretha (Jennifer Hudson), quando é criança, e assistimos a uma espécie de festa de debutante onde canta para uma audiência de amigos, familiares e conhecidos onde pontuaram muitas estrelas da época, como Sam Cooke, Ella Fitzgerald, Mahalia Jackson e Dinah Washington. 

Daí, em ambos os projetos, partimos para uma análise ao preponderante papel do pai, um pastor (aqui interpretado pelo sempre seguro Forest Withaker), na formatação da carreira da cantora, que aos poucos tenta assumir os seus desejos musicais e a perseguição a hits e fama além do reconhecimento que já tinha após vários álbuns lançados.

Na verdade, tanto a prestação de Jennifer Hudson em “Respect” como de Cynthia Erivo em “Genius” têm os traços individuais de papel para andar por aí na época dos prémios, sendo natural nesta altura já falar em Óscares no primeiro caso, numa forma de propaganda/campanha que se inicia para também assim ajudar o filme para o mercado. 

Respect”, no entanto, divaga mais no processo criativo e musical que os exemplos citados, mostrando igualmente a questão do relacionamento de Aretha com os homens opressores e comandantes da sua vida, onde além do pai se apresentou também Ted White (Marlon Wayans), o seu marido e agente.

A partir daqui, e sempre com um olhar entre o tímido e convencional analisamos também a sua progressiva emancipação (uma mensagem feminista) a despontar, bem como um maior ativismo ligado ao movimento dos direitos civis defendidos com grande vigor e rigor na época liderado por Martin Luther King, aqui também ele uma personagem. Todas estas camadas e escalas históricas, sociais e pessoais, onde observamos a Aretha mulher, a ativista, e a criativa dão uma força maior ao storytelling, mas necessariamente não transformam o filme num objeto cinemático melhor. De facto, ele apenas fica mais abrangente na sua narrativa, pois Liesl Tommy, um pouco como Ava DuVernay em “Selma”, apesar de conduzir uma história cheia de coração e espírito combativo, nunca traduz isso em puro cinema, optando por rotas académicas e demasiado seguras para atrair o máximo de público possível e conquistar consensos.

E tal como “Selma“, “Respect” vai estar à caça a muitos prémios este ano, mas no futuro serão certamente vistos dentro da 7ª arte como objetos demasiado padronizados que certamente terão direito a reinvenções esteticamente mais robustas e marcantes, como as suas figuras merecem.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
respect-jennifer-hudson-destaca-se-em-filme-seguro-sobre-aretha-franklin Existe um momento nesta cinebiografia realizada pela estreante em cinema Liesl Tommy (já com currículo em séries de TV) em que alguém carimba como santa a cantora Aretha Franklin em comparação à temperamental Billie Holiday.  Tal comparação serve igualmente se olharmos para este “Respect” e...