Fenómeno muito mais comum do que aquilo que se pensa – e especialmente se mostra nas redes sociais em ambiente citadino – as dolinas (depressão no solo característica de relevos cársticos), em inglês “sinkhole”, são a chave deste filme sul-coreano que teve a sua presença no Festival de Locarno regada por infinitos risos, mas também lágrimas de uma plateia que navega ao gosto do realizador por vários géneros cinematográficos, embora a comédia e o drama sejam as primordiais.

Passado na cidade de Jangsu, no filme acompanhamos um grupo de habitantes de um prédio que vê este afundar num desses “buracos”, tendo assim de lutar pela sobrevivência. No centro de tudo, e sempre apaixonado pelo seu caríssimo cadeirão, bem acima das suas posses, está Park Dong-won (Kim Sung-kyun), um homem comum e a sua família que se mudam para uma casa comprada após 11 anos de trabalho.

Eles dão uma festa de inauguração e convidam todos os amigos, além de um vizinho de Park que deve no final do jantar (bem regado a álcool) conduzir cada um dos convidados às suas habitações. Porém, uma grande chuvada muda os planos e todos acabam por dormir no prédio. Logo pela manhã do dia seguinte, o solo desaba e leva consigo o prédio, ficando todos os habitantes do local em risco.

Kim Ji-hoon, já habituado aos filmes catástrofe (The Tower, 2018), “mima” inicialmente o espectador com as formas das comédias de vizinhança desagradável, mas depois subverte esses códigos, chama ao terreno outros, tendo o espectador acesso a situações de romance, terror, suspense (com toques sobrenaturais) e até uma forma muito particular de “thriller de submarino”. E o realizador faz esse percurso entre géneros sem que o espectador perca o fio à meada, dando mais camadas a personagens que inicialmente eram meramente superficiais e funcionais para o mero registo cómico.

Claro está que, no resultado final, encontramos pois um filme abertamente comercial – que nunca quer, nem deve ser levado muito a sério. E tudo equilibrado, onde não falta ainda uma boa dose de melodramatismo “à la coreana“, que tanto pode levar às lágrimas como sorrisos, conforme a disposição.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
sinkhole-a-comedia-catastrofe-que-nunca-quer-ser-levada-muito-a-serioUm filme abertamente comercial bem equilibrado entre a comédia, drama e filme-catástrofe