A Grécia, a austeridade e os seus protestos têm servido para transformar o país numa espécie de nova nação instável aos olhos norte-americanos (como tantas da América Central o eram no passado) em diferentes narrativas modernas. No paupérrimo “O Guarda-Costas e a Mulher do Assassino”, os protagonistas têm de lidar com um vilão grego (materializado através do espanhol Antonio Banderas) que procura uma a vingança contra o mundo pelo que o FMI está a fazer ao seu povo, e neste “Beckett”, produção da Netflix com o dedo de Luca Guadagnino, os tempos da austeridade e de instabilidade política são o pano de fundo de uma história de suspense com um turista norte-americano ser apanhado numa teia de conspirações políticas. Beckett (John David Washington) é esse homem, alguém simplesmente a passear e namorar pela Grécia com a sua companheira (Alicia Vikander), mas que nessa travessia tem um violento acidente de viação. O seu carro sai da estrada e acaba por embater numa habitação alegadamente abandonada, mas durante esse acidente Beckett ainda consegue vislumbrar uma criança ruiva e uma mulher, descobrindo o espectador que esse rapaz é sobrinho de um político de esquerda que ameaça tomar o poder na Grécia.

Quem conhecer bem a história recente grega e a sua política, desde as referências de extrema direita (o partido “Aliança Dourada” transformado em movimento “Sunrise”) à extrema esquerda (O Syriza, claro, transformado em ameaça comunista), vai achar todo este filme um daqueles projetos de superação e heroísmo para “gringo” ver. A verdade é que muito pouco do guião tem sentido, salvando-se ainda assim o realizador Ferdinando Cito Filomarino desses buracos pela criação de um engenhoso jogo do gato e rato onde é impossível não lembrar dos thrillers dos anos 70 ( de Alan J. Pakula a Costa-Gravas), mas principalmente já os seus descendentes dos 80 e 90 como “Frantic/Fenétrico” de Roman Polanski ou mesmo “O Fugitivo” de Andrew Davis.

Seja qual for o filme ou referência, John David Washington está em modo Harrison Ford nos seus tempos áureos de fuga e paranóia, sendo ajudado pelo caminho por várias personagens secundárias, sejam elas caçadores, apicultores ou ativistas que por acaso dirigem-se para Atenas para apoiar o candidato de esquerda (Vicky Krieps é uma delas).

O resultado final deste novo filme da Netflix é assim um filme morno e contido que apesar de esticar a liberdade criativa em demasia no que diz respeito à realidade política grega consegue ser energético o suficiente para não ser de todo um mero exercício de tempo perdido.

Uma nota final para Alicia Vikander, que mesmo que desapareça muito precocemente da ação permanece continuamente na mente de Beckett em toda a sua jornada.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
beckett-john-david-washington-em-modo-sobrevivencia-na-grecia "Beckett" é um filme morno que apesar de esticar a liberdade criativa em demasia no que diz respeito à realidade política grega consegue ser energético o suficiente para não ser de todo tempo perdido.