Vencedor do Urso de Cristal na mostra Generation Kplus da 70ª Berlinale, “Sweet Thing – Infância à Deriva”, um delicadíssimo e truffauniano drama geracional feito em família pelo desaparecido realizador Alexandre Rockwell (“Alguém para Amar”), foi recebido com fogo de artifício em sua passagem pelo Festival de Tribeca, em Nova York, em 2020, quando o evento foi forçado pela pandemia a projetar as suas atrações online.

Um ano e dois meses depois, a longa-metragem aporta em Portugal, em circuito comercial, apostando na representação das agruras de se viver com os tostões contados. Há tempos que o realizador não atraía os olhares da crítica como acontece agora com essa crónica sobre miúdos a desabrocharem para a vida em meio ao desajuste familiar e à pobreza.

Por muitos anos, Rockwell foi lembrado pela sua participação (com Allison Anders, Quentin Tarantino e Robert Rodriguez) na realização do filme em segmentos “4 Quartos” (1995). A dedicação à carreira de professor de Realização, na NYU, tomou-lhe muito tempo e as atenções. Só que num hiato dos seus compromissos docentes, ele filmou este estudo sobre reconexões afetivas com a ajuda da mulher, a atriz Karyn Parsons, e os filhos adolescentes: Lana (um achado de boa atriz) e Nico.

Na trama, situada ao redor de um Natal amargo, Billie (Lana) e o seu irmão mais jovem, Nico a personagem tem o mesmo nome do ator), tentam driblar as carraspanas constantes do pai alcoólatra, Adam (Will Patton, em brilhante atuação), até que este é detido pela polícia e forçado a ir para os Alcoólicos Anónimos.

Sem eira, nem beira, ambos vão viver com a mãe que os abandonou, Eve (Karyn) e com o seu marido abusivo (M.L. Josepher). Num ambiente ainda mais hostil do que o universo de miséria, embebida a vermute, onde cresciam, eles vão precisar se reinventar, com a ajuda de um rapaz cheio de manhas acerca do jogo da sobrevivência nas ruas, Malik (Jabari Watkins).

Há muito de “Os 400 Golpes” (1959) na maneira como eles vão domar as intempéries do desdém afetivo e da falta de perspetiva. A fotografia em P&B (com sazonais rasgos de cor) de Lasse Ulvedal Tolbøll é o que mais transpira Truffaut em cena.

Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
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