Existe toda uma aura de estranheza, negação e desprezo por este “Stardust”, biografia cinematográfica “não autorizada” em torno de “David, antes de se tornar Bowie”, como o marketing a este filme o diz em alto e a bom som.

Mal amado ainda antes de estrear pelo conflito com quem gere o espólio e legado do falecido cantor, onde se inclui a família de Bowie, “Stardust” avançou ainda assim para produção, não podendo contar com a música do famoso cantor.

Especialmente no mundo das artes (cinema, música, fotografia, etc), o poder de quem gere o espólio dos artistas falecidos é tremendo quando se quer utilizar o seu trabalho no cinema, onde o recurso a imagens e segmentos musicais é essencial para uma criação atmosférica que acrescente valor e qualidade à produção. Assim, “não autorizado” significa igualmente uma rejeição à completa submissão dos guionistas perante quem gere esses espólios, pois nenhuma história que esses mesmos gerentes não queiram ver no guião é simplesmente cortada do roteiro. 

Por isso mesmo, dois problemas afiguram-se na construção de filmes ligados a personalidades icónicas. Pode-se avançar sem o apoio de quem gere o espólio, enfraquecendo sobremaneira as produções, como em “Stardust” (como fazer um filme sobre um cantor sem a sua música); ou seguir as regras dos gestores e ter trabalhos que assentam naquilo que esses legados aceitam que o público tenho acesso sobre as suas vidas. Por isso mesmo, arrisco-me a dizer que só artistas cujo trabalho já passou para domínio público poderão efetivamente serem escrutinados sem qualquer amarra criativa. 

O  ator e músico Johnny Flynn assume neste “Stardust”” a difícil tarefa de dar rosto, corpo e voz a David, interpretação para a qual estaria sempre sob elevado escrutínio, não apenas porque o cantor criou várias personagens, versões de si mesmo, ao longo da vida, todas elas cobertas de mistério e estilo, mas porque é uma verdadeira estrela multigeracional que redefiniu a música e a cultura pop

Flynn sabe cantar, consegue dar alguma personalidade ao seu David e é parcialmente bem sucedido nos maneirismos, mas nunca nos faz esquecer que é apenas um ator de alguma forma plastificada e forçada a fazer o papel de alguém que ainda muito vivo na nossa memória.

Existem algumas tentativas estéticas, na montagem e design de produção, de sair do formato académico que normalmente invade os biopics convencionais, isto numa indústria que adora este subgénero e ganha rios de dinheiro com ele.

Talvez daqui a uns anos este “Stardust” se torne um objeto de culto, até porque há um certo fascínio por ovelhas negras que saem do rebanho do cinema comercial à la Hollywood (como os filmes sobre Elton John e Freddie Mercury o são). O filme tem alguma mística, como o de uma faixa B que não avança para um álbum,  mas até daqui a um bom par de anos Stardust soará sempre a uma versão da vida de David (antes de ser) Bowie que encomendamos na Wish e que deixa a desejar.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
stardust-david-antes-do-bowieTalvez daqui a uns anos este “Stardust” se torne um objeto de culto, mas até lá o soará sempre a uma versão da vida de David (antes de ser) Bowie que encomendamos na Wish